segunda-feira, 28 de outubro de 2019

José Agostinho Baptista

CONSTATAÇÃO  
Agora
posso calar-me, meu amigo,
para sempre,
agora, meu irmão,
posso entregar-te as palavras que me
assaltam como um exército de
armas negras,
de aço temperado nas oficinas de um
país demente,
agora
posso baixar a voz e falar-te em surdina
dos rios de prata que vi correrem
pelo mundo,
agora
posso deixar à tua porta os punhais de
Deus e o cordeiro do sacrifício,
agora posso morrer de vez
e chamar-te do outro lado dos alpendres.
(In Epílogo [poesia reunida], Lisboa, Assírio & Alvim, 2019)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Mariana Ianelli

MANUSCRITO DO FOGO
Memento Homo
Antonio Vieira

Ainda não é hora,
Há que tecê-la.
Adubá-la
Para o seu devido tempo.

As chuvas, as unhas lascadas,
O restar na penumbra,
Mas a hora ainda não está madura

As gavetas cheias,
A palha trançando o cesto,
O casaco no ponto da agulha,
Tudo é fruto.

Enquanto acesa a vela
Para a noite do pastor,
Generosa é a doação do fogo.

O braço se estende
Como se coberto de plumas,
Poderia, quem sabe, tentar um voo.
Pernas que, de tão leves,
Não deixariam rastro de fuga
E esta voz maviosa, que canta

São os pequenos grandes eventos
De um diário de bordo:
A poeira sobre a mesa,
Um perfume de laranjas,
O sono dormido em outras camas,
A nostalgia do amanhã.

Quanto cansaço, quanta luz.
Queimam as provas da razão,
Mas o pavio é longo.

Do novo a sede reclama,
O prato esta vazio,
O sexo dilata
Urgências do uma alma
Ancorada na carne e em suas rugas.

E o tributo que se paga
Por estar vivo.
Número do registro,
Licença, currículo,
Passagem.

E os planos traçados
Em sigilo
Para eternizar a duração da rosa.
Dar de comer a um gato,
E caminhar com os pés descalços
Sobre um mar de grãos.

No teatro da quimera,
O mais romanesco dos atos:
Um lugar para morrer
Entre as muralhas de Évora
Numa tarde de maio.

Pássaro do mosaico.
Caligrafia no jarro,
Sete mil contas vidradas.
Assim vai se fazendo a hora.

E queimam os projetos
Desde muito sepultados
De não perguntar
Pelo que não se deve saber,
E menos temer que amar.

Fia-se o tapete, desfia-se,
A areia escorre de um bojo a outro.
Badala o sino, badala o peito,
O sol já rasteja
E, apesar disso, a chama.

Quanta sombra., quanto gozo.
A água para o chá das dez
Borbulhando a um palmo da mão,
O vapor com que se prepara o sono.

E para distrair o acaso
De suas travessuras.
Deixar-se ficar, simplesmente.
Para dar alma à casa
Torna-la necessária
Simplesmente deixar-se ficar.

E se os pés caminhassem.
Levassem o mundo
Para dentro do mundo.,
Se não voltassem mais?
Apenas uma hipótese.
(Mas e quando não voltarem mais?)

Na direção leste do céu. Pégaso.
Então se diz: é verão.

A safra rendeu pouco,
O caule cedeu,
A pele já não tem mais aquele frescor.
Mas a terra permanece
E o vinco marcando a boca
Imprime o sinal
De uma indecifrável alegria
Sobre o rasgo de antigos pavores.

Quantas odisseias escritas
No centenário da estrada,
O correr de um outro rio
Na areia que o vento lava.
O vento e incontáveis passos —
Uns que regressam,
Outros que não chegaram.
Relatos de pioneiros e náufragos.

De repente, a imaginação invade
O que terá sonhado
Aquele homem de mil anos atrás,
Um vassalo na casa do senhor
De quem nenhum outro homem
Se lembra agora.

Baixo-relevo na pedra,
Ânfora pintada.

E se a boca aprendesse
O momento de calar
Para melhor dizer,
Se recitasse mais, saboreasse mais.
Se os olhos, se os dedos,
Ágape dos sentidos,
Se o pêndulo, se a clepsidra.

A cera derrete e se remodela,
Um galo decreta a noite,
cada órbita se cumprindo
Para que a matemática siga
Com seu balé de algarismos
E páginas se acumulem.
Teses, revoluções.

Prepara-se o vaso,  o epitáfio,
A moldura do espelho,
A primeira idade do álamo.
Seis manhãs, sete madrugadas
E um rosto emerge do mármore.
Meio século para a construção da abadia,
Segundos para derrubá-la
E assim vai se fazendo a hora.

Erguendo, inclinando.
Tangendo as abstrações,
Materializando
O medo na mordaça,
A morte nos poros vedados,
A simples felicidade num quarto,
A juventude extinta em Cassiana.

A hora ecoando, vertendo,
Inflamando a alegoria
Da balbúrdia das línguas
E dos jardins de canela
E da grande Prostituta
Em escrituras profanas.
O ano do jubileu se exibindo
No produto dos campos.

E na borra da vela consumida
Amontoam-se os erros formidáveis,
A virtude quebrada, o descaminho.
Torna ao pó o aceno desfraldado
Com ternura de mãe, mas nunca visto.
Desaparece de novo e de novo ressuscita
A palavra mal pensada
Que levou embora o amigo.

E o braço se inclina
Como que sob o peso do chumbo.
Pernas que, de tão velhas,
Não ousariam saltar um muro.
E esta voz esgarçada, que range.
Desejo de ser a ave do Nilo
Que renasce da essência do cinamomo.

Treme o farol para aquele que vem
E o quasar na lente do telescópio.
Quantos olhos mais, quantas brasas
Sob a tocaia da lâmpada.
Explode o botão na corola,
Explode o núcleo do urânio.
E o aroma da fertilidade,
É a catinga da devastação.

E quanto dura a restauração da cidade
Diante da sua ruína?
Quanto duram as ruínas?
A caverna dos manuscritos,
O baile dos povos, o hino dos povos,
Sua semeadura, sua vindima.
Quanto dura este círio?

Se fosse possível sair.
Deitar o continente das partes,
O espolio das obras,
Se permitido fosse vagar
Sem os pés, sem o aviso dos ossos,
Eximir-se de ganhos e faltas,
Fugir estando ao redor,
Um instante apenas, um relance.

Pelas mãos aborígines
Que esculpiram essa lança,
Reconsideram-se as cronologias.
E as mãos que cifraram os códigos,
Que tingiram uma prece
Na casca da arvore,
Hosana à memória.

E a mensagem guardada sob as dunas,
Debaixo das mesquitas,
A doze quilômetros no abismo,
A pirâmide que alçou a força escrava
Para o orgulho dos reis
E a amnésia de seus filhos.
O que matando concebeu,
E,  por ter sido concebido, morreria.

Assim está feito, posto.
Urdido, enraizado.
Ao alcance dos dedos,
Tão grandioso e tao frágil.
O balanço da candeia
Na sombra desta luz,
Na seiva desta fala.

A hora plena, cinza e dadiva.

(Em Almádena, Iluminuras, SP, 2007)



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

João Luís Barreto Guimarães

EPITHALÁMION

A paixão procura um corpo (o amor
procura a alma) o que será o amor senão
dor de um fogo posto? Que fará
com que esses dois
(por um acaso perfeito) prefiram ficar unidos
sobrevivendo a mágoas
(desejando a empatia) o que será
que consegue repetir à mesma mesa duas vidas
a cada dia —
cada qual com o seu livro
cada com sua cor de vinho
cada qual sua viagem? O amor não é mais
que o presente (um presente absoluto) em que
procuras a mesa e
do outro lado da mesa está alguém que lê o teu livro
(alguém de quem provas o vinho)
com quem
começaste a viagem. O amor não é mais que isso
 (quimera que não se explica)
o amor não escolhe entre dois
não anula: o
amor duplica.

A SOLIDÃO DOS HOMENS CANSADOS

A
cada dia que passa me sinto mais fatigado. Um
homem procura ternura
no seu regresso a casa (um
 homem não vê o instante em que despe
o ultraje) quando
sai de pés descalços pelo soalho da tarde em
busca de um
copo de olvido. Um homem conhece a casa
pelo gato à janela
 — duas pupilas acesas sentam-se
à mesma mesa
sentam-se à mesa da alma. E a casa recebe o homem
com uma noite sempre nova
(um homem entrega tudo a quem o
salve do exílio)
quem lhe aplaque a solidão
que existe nos homens cansados.

(In Nómada, Quetzal, 2018)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Marianne Moore

SILÊNCIO

Meu pai costumava dizer,
"Pessoas superiores nunca fazem longas visitas,
nem ter que ser apresentadas ao túmulo de Longfellow
ou às flores de vidro de Harvard.
Autoconfiantes como o gato —
que leva a presa à privacidade,
o rabo mole do rato pendurado como
um cadarço em sua boca —
elas às vezes gostam da solidão,
e podem ser privadas de fala
por uma fala que as encantou.
O sentimento mais profundo sempre
se manifesta no silêncio;
não em silêncio, mas em contenção."
Tampouco era insincero em dizer:
"Faça da minha casa sua pousada."
Pousadas não são residências.

(Tradução:  Mariana Basílio)

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Nuno F. Silva

QUARTO MINGUANTE

A madrugada,
essa lembrança
brutal
de que sou
apenas um nome
Invertebrado
que transita
daqui para ali.


E estorva
nas outras
bocas


Tenho a certeza que
se ouviria o pulso
sanguíneo das coisas
cardeais,
se as cabeças
estivessem limpas
da caspa do dia
anterior.


Não te assustes,
cada nome amado
é desde o início
uma cicatriz feita à gadanha
no instinto reptil da língua.


Eu dou o meu corpo
como albergue
a quem tem medo da noite.


Sou com quem eles falam
sobre os estrangeirismos
da solidão,


antes que amanheça
e não lhes seja permitido
segredar mais nada.

(Inédito)



quarta-feira, 11 de setembro de 2019

José Agostinho Baptista

Já não sei de ti as teias do sono, as palmeiras
ao longo do coração.
Setembro leva-te à grande noite,
as tardes descem para o outono.

Das margens advém-nos a ausência:
mãos, afcctos, uma dança ao alvorecer das caravanas;
uvas, um vinho doce se fosses tu.

Não regressarás, eu sei.
Apagam-se as estrofes nas estradas de uns lábios,
apagam-se os candelabros.

Escrever é como um fio de punhais, uma dor que anoitece.

////

Deem-me uma tela onde escurecem os campos.
Trabalharei a cor,
lilás e púrpura que inunda as margens,
o coração que bate como um tumulto de pincéis.

Desfraldam-se as janelas onde se faz tarde.
Repousam as coisas:
giestas, a lira, uma rosa amarela.

Movem-se os remos.
Oiço-os que chamam, os marinheiros do tempo.
Eu lhes darei um porto com a nostalgia dos violinos;
tabernas onde se apagam os girassóis.

Enlouqueço com a voz dos búzios, essa nota marítima
que persigo,
equinócios,
guitarras do trópico ao fundo da noite.

Acende-se o farol nos promontórios.
É como uma rapidíssima estrela girando, um relance de
sóis,
altos poentes —
afiadas escarpas, em baixo.
se apagam os girassóis.

Busco esse destino de sons despenhados, ossos que
se entrechocam, desnudando-se;
uma vertigem de setas trespassa o peito,
as suas corolas frias.

Galopam os cavalos em demanda do sul,
as crinas recortadas pelo fim do dia, um brilho negro.
Ventos do norte crescem na direcção da planície e dos
livros,
enfurecendo as páginas —

timoneiro que fui, aí me escrevo, despeço-me, quebro os
espelhos no interior de uma beleza agreste,
regresso ao sono da terra —

Tudo dorme.

(Em Autoretrato, Assírio e Alvim, 1986)

Sobre José Agostinho Baptista




sábado, 7 de setembro de 2019

Vasco Gato

sei que nunca viste o oceano,
que nunca olhaste a onda sobre a onda,
que nunca fizeste castelos para o mar ser forte.

mas sei que já viste o coração das coisas,
que já tocaste a ferida nos nossos braços,
que já escreveste para sempre o nome da terra.

por isso te digo que vou levar-te o mar
na concha das minhas mãos, azulíssimo,
para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...