INEVITÁVEL MAIS DESEJOS
Tudo o que girassóis vêm nascendo
mais cedo que reluzem o pó de tudo,
prevê-se, cilícios em que o medo se escarlate
nas cócegas de nunca arder
Vida de escandir ondas nos vincos dos dedos
e ilíadas para a pele
Ser na berlinda entrepistas
de morenas taísas pitonisas:
o fúlgido agouro tatuado, cada luz
de palavra rompendo nada o osso,
caldos de mais-cores banhando
a pele-escorpião
Agora faina do fluxo-gêiser verbo e tal
versejo e tal até que daí
erupção o sumo o suco podre das significações,
verseja-se, cábula das semelhanças,
fendendo realismos ismos
Tudo o reluzem, vinde nascente
mais ouro cedo do sol:
na tua luz que, ei-las, asas
saem caudalosas
em flagrante flamância
OLHO EMPECILHO DO OLHAR E O MAR DA ONDA
SEM MAR
Como apresentar o ar que se estilhaçando
quase flocos e furto ao caos,
sempre espicaçado, flor que transpetalada
peça o céu de gotas de nada?
No furo fundo da voz é menos falar
de brisa que giz insista como grito
vagir-se em segredo.
Pequeno valer-se do corpo fosse farsa,
a verdade é sobrevoo e
procurando o sonho é hipocampo sem asas,
porém inflado e à luz alado.
Então pior que saia a sombra
do corpo, giros dos cascos do vento,
surpresa vai-se fotocravejada,
cravejada, fóssil histérico
de novo em convulsão
(In Desencantos mínimos, São Paulo: Iluminuras, 1996, pp. 38-39)
Ricardo Pedrosa Alves nasceu em Governador Valadares
(MG), em 1970. É graduado em Sociologia, pela Unicamp. Seu primeiro livro se intitula Desencantos mínimos (São Paulo: Iluminuras, 1996).
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