segunda-feira, 28 de maio de 2012

Renata Pallottini



O SANGUE

Não te  quero brutal, mas represado.
Quero teu curso, feito entre paredes
de carne. Quero teu caminho
azul e frágil quando vais, e quando
vermelho e novo pelo teu retorno.
Quero-te movimento entrecortado
e não fonte espantosa
Quero tatear no íntimo
do que és substancialmente
e ali surpreender-te vida.
Contigo latejar nos pulsos longos
e adivinhar contigo as emoções
das frontes imortais.
Assim te quero, sangue: musical,
com teu calor de sumo excelso
e essencial.

In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 72

João Cabral de Melo Neto


O FIM DO MUNDO


No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.

Fonte: Obra completa, Ed. Nova Aguillar S.A.: Rio de Janeiro, 1999, p. 71

Ivan Junqueira


O POEMA


Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?
Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que o algema?

Fonte: Poemas Reunidos, Editora Record: São Paulo, 1999, p. 215

Fernando Namora

TUDO NA VIDA ESTÁ EM ESQUECER O DIA QUE PASSA
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul*.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

* Palavra de pouco uso no Brasil. Pântano, brejo

Sobre Fernando Namora 

Dylan Thomas


A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA

A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou proteção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

( tradução: Fernando Guimarães)

Guerá Fernandes

OS RATOS NÃO ESCONDEM SEU OLHAR

Acordou e estava sozinho. Abriu a janela. A cidade também abandonada. O lixo maior, invadindo as ruas. Não gostava de viver do lixo. Era pior se sentir parte dele. No espelho parou pela primeira vez. Estático. Onde estavam as palavras? Pouca coisa ele havia dito como se ainda rastejasse. Nada ouviu de fato. Ele não conhecia o mundo por mais terrível que ele fosse. Ele diria pra si mesmo. Desafiou-se e começou a experimentá-las.
– Medalha! Medalha…
Não era uma palavra assim tão bonita. Nunca tinha visto uma medalha. Nem um general. Conteve-se. Queria novas palavras. Refletida no espelho uma barata olhava em sua direção. Adivinhou os olhos dela. Atentamente. Ameaçada ela fugiu. Ele nem se mexeu.
– Uma barata nua voou desaparecendo…
Ele se perdeu. Não sabia como prosseguir. Não tinha tantas palavras para sair emendando umas nas outras. Ademais não gostava de baratas. A mãe orientava sobre a importância das baratas. As mais fortes. As últimas. Sobrevivendo a todos. Multiplicando-se nos caos. Elas sim veriam a queda dos edifícios suspensos. E mesmo depois elas estariam ali como se não tivessem fim. O fim é banquete dos urubus, aprendeu com o irmão.
– Urubu!
Disse com força. A própria palavra subia para as alturas. Aprendeu também a admirá-los entre os catadores. Alimentando-se dos catadores quando ao lixo se entregavam sem vida. Os urubus desafiam até mesmo o sol. E todos temiam o sol. Aproximando-se gigantescamente sobre o que sobrou da Terra. O urubu realmente tornava o céu mais bonito. O sol embora pulasse sempre de um lado para outro dava a impressão de estar sempre naquele mesmo lugar em que estava no exato momento.
– O urubu é lindo voando no céu!
Ficou triste de repente. O que seria do céu quando os urubus não existissem mais. As baratas viveriam mais que os urubus. Elas com seu vôo pequeno. De um ponto a outro sem nenhuma graça. Fugindo. Apenas isso.
– As baratas fogem mesmo quando estão voando.
Então ele entendeu o segredo das baratas. Elas nos ensinam a fugir.
- Ratos…
Riu. Pensou plural. Um atrás do outro. Ligados pela mesma direção. Sabiam aonde ir. Iam. Os ratos não voltavam. Viu que isso era seu e estava feliz. As baratas da mãe, os urubus do irmão. Seriam dele os ratos. Era.
- Os ratos são meus!
E ele possuiu o que lhe pertencia.
- Os ratos não escondem seu olhar.
Estava gostando do que estava dizendo. Bonito mesmo é quando tudo parece novo. As palavras repetidas aqui e ali. As mesmas. O que agora parecia tão novo! Até mesmo as ruas passaram a fazer sentido. Era preciso ir. E voltar como se fosse. É uma questão de olhar. As palavras. Então era isso. Estava descobrindo um mundo de coisas. E ele que esperou tanto tempo pelo irmão sempre catando entre os urubus. Como um urubu. Senhor da podridão. Altivo. Sagrado. E ele não era nada. Ele não sabia. Como não. Agora essa palavra indo atrás dos ratos. Pois bem. Seguiria os ratos pelas ruas. Riu de novo e mais forte. No silêncio seguinte se deu conta de que possuía uma imagem. Quem era? Estaria condenado a ser o irmão de alguém que já tinha partido?
Quando a mãe retornou, ele se voltou como quem queria saber. A pequena Diana dormia agarrada às suas pernas. Ela estranhou a atitude. Respondeu passando por ele como se pedisse silêncio. Ele esperaria. E desta vez a mãe não teria como fugir. Esteve o dia inteiro diante do espelho. Tinha palavras próprias. Ruas inteiras a sua espera. Seguiria os ratos.
O toque de recolher soou. O sol se pondo. Nem baratas nem urubus. Seguiria os ratos. Eles que vasculham as noites sem temer os caminhos que devem seguir. Ele que sempre esperou agora iria. Nem tão grande nem tão pequeno. Mas um piscar de olhos. Não enfrentaria gangues, mas jamais seria pego por elas. Sem temer os esgotos com seus mortos. Sem precisar de portas. A mãe que se demorasse. Ele agora já ia cheio de palavras descobrindo ruas. Ele já tinha um olhar. Mesmo dentro da noite. Sem medo. Iria. Estava decidido já existindo em si. Sozinho como a noite. E para dentro dela ele foi como um rato…

Guerá Fernandes
Fragmento de “O POÇO”, 2010
In: guerafernandes.blogspot.com.br/

Murilo Mendes


CERTO MAR
O mar não me quer,
O mar não sei porque me abomina,
o mar autárquico:
Ele me atira barbatanas e algas podres,
Destroços de manequins e papéis velhos,
Arrastando para longe barco e sereia.
O mar tem idéias singulares sobre mim,
Manda-me recados insolentes

Em garrafas há muito esquecidas e sujas.
Suprime de repente o veleiro de 1752
Que vinha beirando o cais.
Suprime o veleiro e um bando de fantasmas
-Eu bem sei-
Únicos, polidos, um quase nada solenes.
Não tolero mais este safado,
Nem mesmo o admito no outro mundo:
Felizmente a eternidade é límpida,
Sem praia e sem lamentos.
Hei de espiá-lo da Grande rosácea,
Hei de vê-lo um dia lá embaixo,
Inútil: espremida esponja, carcaça de canoa,
Avesso de fotografia.

[Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994, pp. 553-554]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...