TARDE DE DOMINGO
assim
disposta num terraço
aberto ao tempo
a cadeira se balança
com cuidado e conforto
mas leve indecisão
quanto ao ritmo
não tanto
pelo frágil frêmito
da imagem do mar
seu brilho
de espelho fraturado
sob o sol
mas sobretudo
pela regularidade
do movimento mesmo do mar:
avanço sistemático
e recuo estratégico
a tracejar
uma linha de ameaça
ou simples prenúncio
de perigos mais fundos
- o frio dos abismos
e os restos
que habitam esta baía
não fosse vir
de dentro da casa
essa música
feita de limpidez
e medida
maquinaria impalpável
de emoção à flor da matéria
que numa recusa ao devaneio
se articula avessa à dispersão
para expor
por entre sombras
iluminadas pela razão
todo o seu desalento
In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, pp. 72-73
domingo, 14 de outubro de 2012
sábado, 13 de outubro de 2012
Flávio Boaventura
BABILÔNIA CENTRAL
para Edson Caramori, irmão na pedra e na flor.
"Pois os olhos são testemunhas 'mais exatas que os ouvidos"'.
Heráclito de Éfeso
Passei entre bancas de legumes
e quase apodreci de ciúmes
aquático boiei vendo peixes:
meus fitos mais fúteis tinham brânquias
vi outros bichos fui bicho fui eu mesmo
libertei instigantes instintos
cheirei ervas flores apalpei (olho apalpando)
consultei mulheres simples-sóbrias
pisei no corredor de vime me comovi
chorei lágrimas de pau
ardi artista plástico minhas mãos pinceis
meu corpo tela minha saliva tinta
apareci fotógrafo funâmbulo cineasta
vi atores atrizes atrozes cicatrizes
vi movimentos de monumentos
bebi suores do povo fiquei embriagado
e amei a vendedora de frutas cítricas
que me sugava demoníaca délfica diagonal
indelével com voz de citara.
Fonte: MOTIM, Belo Horizonte: Mazza Edições, 1980, p. 41
para Edson Caramori, irmão na pedra e na flor.
"Pois os olhos são testemunhas 'mais exatas que os ouvidos"'.
Heráclito de Éfeso
Passei entre bancas de legumes
e quase apodreci de ciúmes
aquático boiei vendo peixes:
meus fitos mais fúteis tinham brânquias
vi outros bichos fui bicho fui eu mesmo
libertei instigantes instintos
cheirei ervas flores apalpei (olho apalpando)
consultei mulheres simples-sóbrias
pisei no corredor de vime me comovi
chorei lágrimas de pau
ardi artista plástico minhas mãos pinceis
meu corpo tela minha saliva tinta
apareci fotógrafo funâmbulo cineasta
vi atores atrizes atrozes cicatrizes
vi movimentos de monumentos
bebi suores do povo fiquei embriagado
e amei a vendedora de frutas cítricas
que me sugava demoníaca délfica diagonal
indelével com voz de citara.
Fonte: MOTIM, Belo Horizonte: Mazza Edições, 1980, p. 41
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Hilda Hilst
XXIII
Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas: navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo
Também isso te devo.
XXIV
Ai, que distanciamento, que montanha, que água
Estes rios
fundos, o meu sumo escorrendo,
Esta chaga, ai, senhor, que já não vejo
O tempo, ando
ensombrada
Quase dormida e insone pela casa
E ao mesmo tempo raposa perseguida:
Se ontem ousava correr, hoje não ousa.
Antes se alegra
Do ouvido que escuta os cavalos correndo
A música dos
instrumentos, dos cães o latido
E se deixa matar. Ai de mim, me conhecendo
Penitente sem ser preciso, com esse viço do amor.
Não me sabendo nunca
perseguida
Mas sendo caça, indo à frente
E perseguindo o caçador.
(Do Amor, Massao Ohno Editor: São Paulo, 1999, pp. 32-33)
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
Leandro Sarmatz
TRÊS POEMAS
FELICE
Havia algo de nacional-socialismo em meu olhar.
Era à noitinha. Ela então veio a mim
bem devagar: deixara a cidade, algum tipo de passado
e outro dono, talvez.
(Porque tudo, quase tudo, se resume a ter um dono.)
Alguns dias se passaram e seu cheiro, seu olhar desamparado
e seu ar de forasteiro
-tudo isso me exasperava.
ela parecia temer ser violada.
E assim ficamos um tempo sem medida
até finalmente chegar o momento da tortura.
Ela implorava para nunca ser lembrada, miava agudo
de uma maneira que apenas aguçava a minha vontade:
"Quando eu descobri essa delícia?" -eu murmurava
enquanto vagava pela casa à sua procura-
"Que deus nostálgico do horror me trouxe
para o centro desse desejo inextinguível?"
Ela se escondia atrás da porta, ou no banheiro,
atrás do fogão ou tiritando sob a cama.
Eu a caçava cheio de ardor,
metia-lhe dentro do meu carro e a obrigava
a rever toda a cidade em pleno sol de abril.
Era de conhecimento quase geral, e no máximo
pagavam-lhe um copinho de sorvete.
BALADA HEBRAICA
Ao vê-los escuros
Ao vê-los gastos
-pântano, memória e tumba-
lembro que Herzl teve suas ideias
depois de escutar Wagner.
INUNDAÇÃO
Não sabendo hoje mais do que eu já soube
como alguém que descobre em si o gene da derrota
ouço a canção de ninar abortos
todos esses hinos de balcânica euforia:
subterrâneos vivos
ossários de papel notícia.
Fonte: Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima, domingo, 07 de outubro de 2012.
Sobre Leandro Samartz
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Renata Pallottini
VIZINHA
Vizinha,
me dá um pouco da tua sopa
me deixa partilhar o azeite
e as batatas da tua ceia
estou tão triste.
A esta hora da noite
sois ao redor da mesa
uma família
e o vapor da terrina embaça os óculos
do homem
e as crianças riem.
Sei muito bem das vossas dificuldades
que o dinheiro é pouco e a paixão
já se acabou
porém
vizinha
tua sopa cheira bem, teus filhos estão crescendo
tens um canário e rosas
e não sabes de nada;
abre a porta, vizinha, e me admite no seio
dessa coisa que um dia eu supus acabada
que eu detesto e desejo,
e não compreendo.
Por favor, por favor,
deixa-me entrar, vizinha.
Estou tão triste.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 293]
Vizinha,
me dá um pouco da tua sopa
me deixa partilhar o azeite
e as batatas da tua ceia
estou tão triste.
A esta hora da noite
sois ao redor da mesa
uma família
e o vapor da terrina embaça os óculos
do homem
e as crianças riem.
Sei muito bem das vossas dificuldades
que o dinheiro é pouco e a paixão
já se acabou
porém
vizinha
tua sopa cheira bem, teus filhos estão crescendo
tens um canário e rosas
e não sabes de nada;
abre a porta, vizinha, e me admite no seio
dessa coisa que um dia eu supus acabada
que eu detesto e desejo,
e não compreendo.
Por favor, por favor,
deixa-me entrar, vizinha.
Estou tão triste.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 293]
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Manoel de Barros
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique
à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
III
Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.
IV
No Tratado das Grandezas do ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
E quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
V
Formigas-carregadeiras entram em casa de bunda.
VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.
VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para
cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.
VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um
torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no
mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na
voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
X
Não tem altura o silêncio das pedras.
Manoel de Barros, Poesia Completa, são Paulo: Leya, 2010, pp. 300-301
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Carlos Pintado
A BELEZA
De novo amo e não amo
e deliro e não deliro
Anacreonte
A beleza que passa como o sonho,
fugaz, inabarcável, sem destino,
se detém um instante sobre o lábio
desvela a mirada ou o cabelo,
doura a sombra, os ocasos,
uma frase de amor, um corpo amado,
uma rosa reluzente nas trevas,
um fogo que desce da noite,
uma aurora silenciosa e distante,
um parque onde estamos tão unidos,
uma rua de Roma ou da Inglaterra,
um rapaz ou uma jovem que me espera,
e este verso que escrevo ao léu:
"a beleza que passa como o sonho".
( Habitación a Oscuras)
e deliro e não deliro
Anacreonte
A beleza que passa como o sonho,fugaz, inabarcável, sem destino,
se detém um instante sobre o lábio
desvela a mirada ou o cabelo,
doura a sombra, os ocasos,
uma frase de amor, um corpo amado,
uma rosa reluzente nas trevas,
um fogo que desce da noite,
uma aurora silenciosa e distante,
um parque onde estamos tão unidos,
uma rua de Roma ou da Inglaterra,
um rapaz ou uma jovem que me espera,
e este verso que escrevo ao léu:
"a beleza que passa como o sonho".
( Habitación a Oscuras)
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