domingo, 14 de outubro de 2012

Júlio Castañon Guimarães

TARDE DE DOMINGO
assim
disposta num terraço
aberto ao tempo
a cadeira se balança
com cuidado e conforto
mas leve indecisão
quanto ao ritmo

não tanto
pelo frágil frêmito
da imagem do mar
seu brilho
de espelho fraturado
sob o sol

mas sobretudo
pela regularidade
do movimento mesmo do mar:
avanço sistemático
e recuo estratégico
a tracejar
uma linha de ameaça
ou simples prenúncio
de perigos mais fundos
- o frio dos abismos
e os restos
que habitam esta baía 
não fosse vir
de dentro da casa
essa música
feita de limpidez
e medida
maquinaria impalpável
de emoção à flor da matéria
que numa recusa ao devaneio
se articula avessa à dispersão
para expor
por entre sombras
iluminadas pela razão
todo o seu desalento

In Poemas [1975 - 2005], Cosacnaif: São Paulo, 2006, pp. 72-73

sábado, 13 de outubro de 2012

Flávio Boaventura

BABILÔNIA CENTRAL

para Edson Caramori, irmão na pedra e na flor.

"Pois os olhos são testemunhas 'mais exatas que os ouvidos"'.
Heráclito de Éfeso

Passei entre bancas de legumes
e quase apodreci de ciúmes
aquático boiei vendo peixes:
meus fitos mais fúteis tinham brânquias
vi outros bichos fui bicho fui eu mesmo
libertei instigantes instintos
cheirei ervas flores apalpei (olho apalpando)
consultei mulheres simples-sóbrias
pisei no corredor de vime me comovi
chorei lágrimas de pau
ardi artista plástico minhas mãos pinceis
meu corpo tela minha saliva tinta
apareci fotógrafo funâmbulo cineasta
vi atores atrizes atrozes cicatrizes
vi movimentos de monumentos
bebi suores do povo fiquei embriagado
e amei a vendedora de frutas cítricas
que me sugava demoníaca délfica diagonal
indelével com voz de citara.

Fonte:  MOTIM, Belo Horizonte: Mazza Edições, 1980, p. 41

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Hilda Hilst


XXIII
Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas: navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo

Também isso te devo.

XXIV
Ai, que distanciamento, que montanha, que água 
Estes rios fundos, o meu sumo escorrendo,
Esta chaga, ai, senhor, que já não vejo 
O tempo, ando ensombrada 
Quase dormida e insone pela casa
E ao mesmo tempo raposa perseguida:
Se ontem ousava correr, hoje não ousa.
Antes se alegra
Do ouvido que escuta os cavalos correndo 
A música dos instrumentos, dos cães o latido 
E se deixa matar. Ai de mim, me conhecendo 
Penitente sem ser preciso, com esse viço do amor. 
Não me sabendo nunca perseguida
Mas sendo caça, indo à frente 
E perseguindo o caçador.

(Do Amor, Massao Ohno Editor: São Paulo, 1999, pp. 32-33)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Leandro Sarmatz

TRÊS POEMAS

FELICE
Havia algo de nacional-socialismo em meu olhar.
Era à noitinha. Ela então veio a mim
bem devagar: deixara a cidade, algum tipo de passado
e outro dono, talvez.
(Porque tudo, quase tudo, se resume a ter um dono.)
Alguns dias se passaram e seu cheiro, seu olhar desamparado
e seu ar de forasteiro
-tudo isso me exasperava.
Eu dirigia-lhe palavras e outras vacuidades,
ela parecia temer ser violada.
E assim ficamos um tempo sem medida
até finalmente chegar o momento da tortura.
Ela implorava para nunca ser lembrada, miava agudo
de uma maneira que apenas aguçava a minha vontade:
"Quando eu descobri essa delícia?" -eu murmurava
enquanto vagava pela casa à sua procura-
"Que deus nostálgico do horror me trouxe
para o centro desse desejo inextinguível?"
Ela se escondia atrás da porta, ou no banheiro,
atrás do fogão ou tiritando sob a cama.
Eu a caçava cheio de ardor,
metia-lhe dentro do meu carro e a obrigava
a rever toda a cidade em pleno sol de abril.
Era de conhecimento quase geral, e no máximo
pagavam-lhe um copinho de sorvete.

BALADA HEBRAICA
Ao vê-los escuros
Ao vê-los gastos
-pântano, memória e tumba-
lembro que Herzl teve suas ideias
depois de escutar Wagner.

INUNDAÇÃO
Não sabendo hoje mais do que eu já soube
como alguém que descobre em si o gene da derrota
ouço a canção de ninar abortos
todos esses hinos de balcânica euforia:
subterrâneos vivos
ossários de papel notícia.

Fonte: Folha de São Paulo, Caderno Ilustríssima, domingo, 07 de outubro de 2012.



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Renata Pallottini

VIZINHA
Vizinha,
me dá um pouco da tua sopa
me deixa partilhar o azeite
e as batatas da tua ceia
estou tão triste.
A esta hora da noite
sois ao redor da mesa
uma família
e o vapor da terrina embaça os óculos
do homem
e as crianças riem.
Sei muito bem das vossas dificuldades
que o dinheiro é pouco e a paixão
já se acabou
porém
vizinha
tua sopa cheira bem, teus filhos estão crescendo
tens um canário e rosas
e não sabes de nada;
abre a porta, vizinha, e me admite no seio
dessa coisa que um dia eu supus acabada
que eu detesto e desejo,
e não compreendo.
Por favor, por favor,
deixa-me entrar, vizinha.
Estou tão triste.
[In Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, p. 293]



terça-feira, 9 de outubro de 2012

Manoel de Barros


II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique
à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.

III
Repetir repetir — até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

IV
No Tratado das Grandezas do ínfimo estava escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
E quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V
Formigas-carregadeiras entram em casa de bunda.

VI
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a 
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele 
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso partir de 
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde, no
mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em 
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato 
sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X
Não tem altura o silêncio das pedras.

Manoel de Barros, Poesia Completa, são Paulo: Leya, 2010, pp. 300-301

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Carlos Pintado

A BELEZA
De novo amo e não amo
e deliro e não deliro
Anacreonte

A beleza  que passa como o sonho,
fugaz, inabarcável, sem destino,
se detém um instante sobre o lábio
desvela a mirada ou o cabelo,
doura a sombra, os ocasos,
uma frase de amor, um corpo amado,
uma rosa reluzente nas trevas,
um fogo que desce da noite,
uma aurora silenciosa e distante,
um parque onde estamos tão unidos,
uma rua de Roma ou da Inglaterra,
um rapaz ou uma jovem que me espera,
e este verso que escrevo ao léu:
"a beleza que passa como o sonho".
( Habitación a Oscuras) 


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...