sábado, 16 de março de 2013

Mariana Ianelli

UMA ESTRELA NOS CAMPOS

Em memória de Etty Hillesum (1914 – 1943)

Trabalhava. Trabalhava numa primavera fria
esperando ser como a lua, ser como um pasto:
uma vasta paisagem tranquila  –
e desenterrava Deus de sob pedras e cascalhos.
O caminho até o cais era feito entre soldados
(todos tão pequenos por trás de seus crimes).
E trabalhava mais: era uma estaca no mar,
era um pedaço de granito, era o próprio mundo
prestes a ser destruído. E trabalhava mais:
estava com os deportados, com os desaparecidos,
estava com uma flor num retângulo de jardim.
De minuto a minuto forjando a calma em pessoa,
o sorriso de Buda, um terreno baldio.
E já havia partido, muito antes de partir, debaixo
de um céu sem palavras: era uma estrela nos campos,
era a mulher já sem nome do vagão número 12
na direção do Leste, cantando de alegria.

O POETA

Para Paulo José Miranda

Todas essas terras disputadas,
uma vida de alcateia e de cobiça –
mas nem todos nós temos essa fome.
Alguém tem apenas o deserto
de uma história que nunca foi escrita,
a saga sem metáfora de glória
de ciganos tão antigos quanto estrelas –
ao menos um de nós é o outro filho,
o andarilho irmão que foi banido,
e outra vida vem do fundo de um poço,
uma flecha cruza um mundo sem divisas.


Fonte: Revista Pessoa






sexta-feira, 15 de março de 2013

Maria do Sameiro Barroso

COMO UM DITIRAMBO
Desperto, num limiar sonâmbulo, imóvel, quase opaco,
como se o mar me acordasse, nas suas lâmpadas,
e no seu fulgor me enredasse, nos seus búzios claros 
de ardor e doçura.
Entre ossadas, cimento e música, uma árvore brilha,
entre as muralhas irredutíveis de outro tempo.
No sabor de mangas, coco, a lua acorda-me,
cheia de cristais pendentes, qual árvore enamorada,
leito de gatos macios, silêncio onde um suspiro
se extingue, num novo rumor, que de novo se inicia.
No limiar da bruma, as névoas separam-se.

Como um ditirambo, a luz soletra a rota de Dioniso,
Alexandre, à beira do Hidaspes.
Nos vitrais exóticos, à luz de um candelabro,
vislumbro anis, alaúdes, elefantes de magia.
Na noite, acendem-se as jóias obscuras de secreta
alquimia.
Junto das árvores, onde os pássaros cantam,
pela manhã, a erva-doce preenche o espaço, a boca,
a névoa, onde o peito de asas sôfregas respira.

Há pouco, ânforas vazias eram os meus olhos
e amuletos de luz eram as palavras que segredavam
os navios brilhantes, que alguma palavra selou.
Há pouco, num instante apenas nasceria, se no leito
dos teus rios me banhasse,
numa só noite viveria, se no corpo das algas me espraiasse,
e, num só gesto morreria, se de tuas cisternas de cristal
me apartasse.
Nas torrentes de murmúrios e mel, há um rio
onde anémonas de sangue se associam,
para dizer as palavras transparentes.

Nos desertos onde pairam a lua e hibiscos, o céu murmura
as areias límpidas, as sombras que se desprendem
e as ânforas que se enchem-se, de novo,

no liquor luminoso de preciosos sinais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FANTASIA SOBRE UM TEMA BÍBLICO
Escurecem os jardins, as fontes, as cisternas,
apenas a noite e esta mulher, para mim, Saul,
coroado de treva.
Da sombra, igual ao sheol , recebo as insígnias sagradas,
do espírito divino me chega o lírio tenebroso,
a unção da morte,
e qual rebanho entre as macieiras, repouso em ti,
mulher de En-Dor,
porque as harpas tocam e as fontes vivas reclamam
o meu nome,
o meu sangue, o teu silêncio mo diz,
por isso prossigo, por isso me fortaleço
e no teu seio me demoro.
Em ti bebo a sede eterna, porque as harpas sempre
se pareceram com mulheres e as mulheres
com nenúfares, acedendo à noite incandescente,
de nardos e ciprestes.

Amanhã regressarei às pastagens celestes,
Antes sorverei o teu rútilo mel, nos teus umbrais
perfumados,
breve mandrágora, estrela entre os cardos.

secreta flor colhida em En-Gaddi.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


FRAGMENTOS HELÉNICOS
O mar, o vinho e os seus reflexos (as baías do Egeu),
a cal, o húmus, um sol de espigas plenas,
o mistério das coisas simples,
um mundo de dimensões perfeitas.

Depois, as mãos, as raízes, os muros, as manhãs
odorosas.
Uma sílaba exacta semeando um átrio,
a Primavera úbere, o mosto quente de Setembro,
o vinho cristalino, o sabor dos frutos,
cristais de Outono,
Inverno, uma rosa túmida, Eugénio de Andrade.

Como quando li, pela primeira vez
e a poesia me envolveu,
em suas sílabas nocturnas, luminosas,

como girassóis primordiais.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009


Para os amigos do outro lado do Atlântico: 

MAGNÓLIA ATLÂNTICA
É de vida que o poeta se nutre, de poemas que vai beber 
aos rios,
por isso as suas palavras são carne, fruto, seiva, essência,
constelação brilhante, semeada entre os livros.
É de vida que o poeta se nutre, do cântico dos pássaros,
de vivências exóticas.

Do outro lado do Atlântico, há brisas doces, água de coco,
palmeiras estivais, e a vida recorta-se, em toda a sua luz,
construindo do nada a sua essência.
Na luminosidade dos dias, releio o Memorial de Aires,
e as lágrimas aguardam, pacientes, num jazigo,
entre momentos lépidos, passados entre Shelley,
Thackery, e Fidelia, qualquer coisa a lembrar Beethoven.

Gosto quando as narrativas se enredam e me enredam,
entre uma carta de alforria, uma referência a Heine,
os jacarandás, o cheiro do café,
ou uma reflexão sobre a abolição da escravatura.

É assim o Brasil; entre araras e araucárias,
também se pode ler Goethe, Fausto (o Prólogo do Céu),
nas brisas mornas, feitas de pedras soltas, limas,
jacarandás, limões de açúcar,
quando o cheiro a tinta das tipografias atravessa as praças,
as ruas, os cafés, o céu perfumado e o vasto oceano,

onde refulge o sal precioso da magnólia atlântica.

In “Uma Ânfora no Horizonte” 2009



quinta-feira, 14 de março de 2013

Lélia Coelho Frota

EMPECILHO
Dura efígie que interfere 
em seu mais ínfimo gesto
artifício negador
suprimindo amenidades
armazenadas em azul
cor de flor primaveril.

Artifício volantim
equivocando emoções
(eis a troca sub-reptícia!).
Onde era lume, o fastio
resignado dos legumes
disciplinados em horta.

Sol, que não era, mas um
florim esculpido em blau
irradiando cordura
para as gentes sem paixão
é planeta moderado
a medir luz, donativo.

Fino cicio da grama
sugerindo proporções
de amar que se harmonizassem
ao segredo da paisagem
é verde epitáfio, e talha
sob placidez nossa face
devaneio choro talhe.

Violinha sonantinho
para nosso pé dançar
é pífaro intermitente
convidando a meditar.

Minuto que atrairia
o poema, a flor arisca,
se estilhaça no tinteiro
atrasa a memória pouca:
é fascículo incompleto
o livro que esmeraríamos
limitados, pobres, tensos,
desmedidamente avaros
fixos em lenta dolência
de navio sob pilhagem
a tentar fugas na brisa
mas contido no pesado
calado de sua rota
cor, velame, referência.

É partícula de tédio
e desencontro, letreiro
de nítidos argumentos
carreando senso ao denso
panejamento de amar.
É trave, é pílula grave
que assimilamos, desgosto
mudo, severo, pausado
a afiar no coração
seu dente de interferência
madureza e abstenção.

[In: Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971, p. 56]

Siron Franco

quarta-feira, 13 de março de 2013

Conceição Lima

QUANDO A LUA CAIU
Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.
Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.
As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não és.
Pedra a pedra encho a noite
do teu rosto sem medida
para te construir convoco os dias
pedra a pedra
no teu tempo consumido.
Georgi Petrov
As pedras crescem como ondas
no silêncio do teu corpo.
Jorram e rolam
como flores violentas.
E sangram como pássaros exaustos
no silêncio do teu corpo
onde a noite e o vento se entrelaçam
no vazio que te espera.
Súbito e transparente chegaste
quando falsos deuses subornavam o tempo,
chegaste sem aviso
para despedir o defeso e o frio,
chegaste quando a estrada se abria
como um rio,
chegaste para resgatar sem demora o principio.
Grave o silêncio agarra-se ao teu corpo,
hostil o silêncio agarra-se ao teu corpo
mas já tomaste horas e caminhos
já venceste matos e abismos
já a espessura do obô resplandece em tua testa.
E não me bastam pombas dementes no teu rosto
não bastam consciências soluçante em teu rasto
não basta o delírio das lágrimas libertas.
Cantarei em pranto teu regresso sem idade
teu retorno do exílio na saudade
cantarei sobre esta terra teu destino de rebelde.
Para te saudar no mar e no palma
na manhã dos cantos sem represas
saudarei a praia lisa e o pomar.
Direi teu nome e tu serás.

1986

Fonte: Jornal de Poesia

Sobre a autora

terça-feira, 12 de março de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

TRANSPARÊNCIA
Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres


POEMA
A minha vida é o mar o Abril a rua 
O meu interior é uma atenção voltada para fora 
O meu viver escuta 
A frase que de coisa em coisa silabada 
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro 
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações 
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade 
Pois nenhum outro senão o mundo tenho 
Não me peçam opiniões nem entrevistas 
Não me perguntem datas nem moradas 
De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora lentamente 
Cada dia preparada

[In OBRA POÉTICA,   Alfragide, Caminho, 2011, pp. 524-525].

Cláudia Simões


segunda-feira, 11 de março de 2013

Maria do Rosário Pedreira

DORME, MEU AMOR
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.


DIZ-ME O TEU NOME
Diz-me o teu nome - agora, que perdi 
quase tudo, 
um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.


In Nenhum Nome Depois, 2ª. ed. Lisboa: Gótica, 2005.

Margarida Cepêda

domingo, 10 de março de 2013

Maria Teresa Horta

TEMPO
É o tempo da mentira.

É o tempo curvo de matar
a morte

É o tempo exacto
de estar exacta e nua

nua e longa
na distância das  fronteiras
do sangue
com cidades cortadas pelo meio

É o tempo grande
de estar cansada
e fria
de estar convosco e ter concessões nos olhos

É o tempo dia
de inventar paisagens
quentes
e ter um carnaval vestido sob os seios

In Cidadelas Submersas, 1961

Matisse
A mulher de chapéu

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...