terça-feira, 14 de maio de 2013

Ruy Belo

ACONTECIMENTO
Aí estás tu à esquina das palavras de sempre
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras que cerrem
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou

 in Aquele Grande Rio Eufrates


Vincent van Gogh

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Mariana Ianelli

Hás de partir sem demora 
A cada instante acordarás em outro campo
E verás em ti a emoção de uma outra face.
Nenhum pacto entre irmãos largados à prova do tempo
Resiste à intenção final do desenlace.
O infinito sonho da memória
Se alimenta das coisas desprezadas
Extraindo delas o espírito
De uma única procura que não morre.
Uma ave de rapina encarnou-se no teu peito,
Armou os teus braços de asas grandiosas
E lançou voo à espreita da carniça
Mudando sempre o teu itinerário
De sorte que não mais te acostumaste a um só crepúsculo,
Nem à paz que a água recende quando brota.
No teu lento caminhar não se percebe
O quanto já avançaste e por onde,
Em verdade pouca lembrança resta
De uma subida espinhosa ou de um atalho
Porque antes os teus olhos de menino
A nada terão se apegado.
O anseio de atravessar as terras novas
É apenas o que existe em ti
Para ser indefinidamente reavivado.
E tudo o que amas com fervor
Reside no absoluto esquecimento do passado.

Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 67

Vibração em Azul
Arcangelo Ianelli

domingo, 12 de maio de 2013

García Lorca

SOLIDÃO INSEGURA (Noite)
Noite de flor fechada e veia oculta.
— Amêndoa sem coalhar de verde tato —
Noite cortada por demais depressa,
as folhas e as almas abalava.
Peixe mudo pela água de amplo som
lascivo se banhava no tremente,
luminoso marfim, recém-cortado
ao da lua chavelho adolescente.
E se o centauro canta nas ribeiras
deliciosa canção de trote e flecha
ondas recolham glaucas seus acentos
com uma dor de nardos sem limites.
Lira bailava na fingida curva,
alvo imóvel de imóvel geometria.
Dormem na escuridão olhos de lobo
renunciando ao sangue das ovelhas.
No lado oposto, Filomela canta,
umidades de heras e jacintos,
com  no ar uma queixa de Sul louco
sobre a da fonte flauta fixada.
Enquanto em meio do sombrio horror
fingindo cantos e aguardando medo
voz inquieta de náufrago soava.

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Lírios de espuma cem e cem estrelas
baixaram porque ondas não havia.
Seda em tambor fica reteso o mar,
enquanto Tetis canta e soa Zéfiro.
Palavras de cristal e brisa escura
redondas sim, os peixes mudos falam.
Academia no claustro dos íris
sob o êxtase denso e penetrável.
Chega bárbara ponte de delfins
onde a água se transforma em mariposas,
colar de pranto nas areias finas,
sem braços a voar à cordilheira.

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Rola gelada a lua, quando Vênus
com a cútis de sal na areia abria
brancas pupilas de inocentes conchas.
A noite cobre seus precisos rastros
com chapins feitos de fósforo e espuma.
Enquanto hirto gigante sem latido
raspa as espáduas tépidas sem vênera.
O céu exalta cicatriz borrosa,
vendo mudada sua carne em carne
que participa da funesta estrela
e o molusco de medo sem limite.

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Federico Garcia Lorca, Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, pp. 228-229



sábado, 11 de maio de 2013

Mariana Ianelli

CANTO DO ESTRANGEIRO
Viria como um rei
Se fosse por vontade tua —
Tão remoto no tempo
Da tua vida
Que nem te tocasse —
Viria com a alvorada,
Quase miragem debuxada
De uma ave
Sobrevoando a tua história.

Sem te possuir
Nem te pertencer,
Para o teu prazer um aceno
O mais natural
Seria o meu sinal no longe,
Isento de paixões
E cheio de glória:

Nada semelhante
À paz que sucede as guerras
No regresso de um Ulisses
Vagabundo,
Exausto de triunfo, como eu
Que penetro o teu mundo
Envolto em sombra
E para sempre me despeço
Ao desfiar a púrpura
Que a espera pôs
Nas tuas pálpebras.

In Treva Alvorada, São Paulo: Iluminuras, 2010, p. 63.


Arcângelo Ianelli ( 1945)
Desenho a carvão
55 x 43 cm

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ivan Junqueira

PENÉLOPE: CINCO FRAGMENTOS

I
Pois foi aqui, nestas areias, 
entre estes íngremes granitos, 
que o aprisionaste em tuas teias
de astutos fios infinitos.

Sim, foi aqui. Ele partira
de sua ítaca nupcial.
Trirremes rumo a Troia, a pira
dos deuses no ermo litoral.

Por três anos, da mesma lã,
fiaste em surdina a infinda tela.
Tudo era espera, ó tecelã!
No horizonte nem uma vela.

Agulha e linha, o teu destino
era o ir e vir daquele fio,
pêndulo amargo, áspero sino
vibrando inútil no vazio.

O que é de Ulisses, o Odisseu,
suspenso no arco das espumas?
O que é do herói, o que é do teu
esposo envolto pelas brumas?

Sob o penhasco que anoitece,
o som das ondas vai rolando.
Penélope tece e destece.
O mar é onde, o tempo é quando.


II
Diz a lenda que o cenário 
era fluído, imaginário:

À sua roda, os aqueus, 
e ela, virtuosa, entre véus.

Dá-la-ia o pai ao que fosse 
o mais arguto e mais doce,

ao que mais luz ostentasse 
no aço da astúcia e da face.

Levou-a Ulisses nos braços, 
entre as algas e os sargaços;

levou-a. O gume das vagas 
se fundia ao das adagas.

Levou mar afora a esposa
e agora em Ítaca a pousa

como um pássaro glorioso, 
em meio às plumas do gozo.

Penélope o olha no rosto:
o herói faísca ao sol-posto.

De Icário a esplêndida filha 
põe o pé e o cetro na ilha.


III
Cingida pelas ondas, ítaca flutua
como a côncava nau de um rei no mar violeta.
Além das vinhas e olivais, a escarpa nua,
a névoa, a espuma, o espaço, a dura linha reta.
Em silêncio, Ítaca recorda: havia um poeta,
e um tempo de discórdia sob o sol e a lua.
E uma rainha havia. E havia mais: a sua
volúpia de estancar as horas na ampulheta.
Errava Ulisses sobre o imenso e rude oceano,
e em seus domínios os aqueus, agora em bando,
iam-lhe os bois e os bens aos poucos devorando.
Absorta e fiel, os dedos ágeis sobre o pano,
Penélope tecia o intérmino sudário.
E o sono lhe era o esposo no átrio solitário.

IV
We are the hollow men.
T. S. Eliot

Nós somos os pretendentes,
o espírito ermo de arrojo,
a cupidez entre os dentes,
a fronte ungida de nojo.

Nossas vozes sem doçura
são como um coro de esgares
cuja surda partitura
suja o branco dos altares.

Não temos nome ou semblante.
Somos todos uma escória,
Uma anônima e arrogante
Poeira rala e sem memória.

Em nossas mãos, dardo ou lança
nada valem: são brinquedos;
mais do que nós, uma criança
lhes sabe o gume e os segredos.

Aqui estamos, ó rainha,
e não há quem nos demova;
aqui estamos, na bainha
de teu corpo e tua alcova.

Ai de nós, homens sem flama!
A esposa fiel trapaceia:
fia ao sol a infinda trama
e à noite desfaz a teia.

Foi-se Ulisses: sua nau
afundou no mar vinhoso.
Quando, ó Penélope, o sal
provaremos de teu gozo?

Nós somos os pretendentes,
a alma ambígua, o olhar oblíquo
— somos o cume e as vertentes
do que há de mais iníquo.

V
Só. Estou só. O mar que me circunda
é um dédalo de arcaicas escrituras,
de alígeras e esfíngicas criaturas
cujo perfil o azul do oceano inunda.
Meu rei se foi. Em que ânforas e agruras
agora, em desespero, ele se afunda?
Que ninfa o enfeitiçou, que água profunda
lhe enche de horror as órbitas escuras?
Ó doce e astuto Ulisses, tuas vinhas
sangram de dor, definham as espigas,
o ouro esfarela, enfezam as olivas
e a terra seca engole os bois que tinhas.
Só. Estou só. Tudo em redor esquece:
o olho que chora, a alcova, a mão que tece.

Junqueira, Ivan. Poemas Reunidos, Rio de Janeiro, Ed. Record, 1999, p. 168-175.



quinta-feira, 9 de maio de 2013

Emílio Moura

POEMA
SERÁ possível esquecer que a noite desceu sobre os
[campos
e que ninguém, aqui, acredita mais que tudo o que
[os corações perderam há de ressurgir, um dia?
 Será possível esquecer que só a perplexidade é que
[nos domina,
que o próprio tempo já não importa mais e que já
[estamos mortos e bem mortos?
Será possível esquecer, mas esquecer, como quem
[nasce de novo,
que esta noite é mesmo noite ?
Podem pedir que venha a Amada,
e que, diante de sua aparição mítica, os nossos cora-
[ções brinquem.
De que nos valerá pedir tanto, se as consciências já
[se fecharam e os corações dormem ?
Em lugar deles, o que se levantou foi uma coluna
[de fogo.
Por que não pedem silêncio ?
Por que não gritam que já morremos ?
Oh ! é impossível esquecer, eu bem sei, mas esque-
[cer como quem nasce de novo
que já estamos mortos e bem mortos.
Quem explicará aos que vierem depois de nós que
[nossa verdade foi soterrada ?
Quem há de entender as nossas almas, se ainda somos daqueles que assistiram ao próprio
[ato da criação,
se pertencemos, ainda maravilhados, à infância mes-
[ma do mundo?

[In POESIA 1932-1948, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1953, pp. 259-260]. 

Philip Guston

quarta-feira, 8 de maio de 2013

José Régio

GRANDE GUERRA
Podes roubar-me o pão!
A Fome, não;
A boca, sim: come ou não come.
Porém, como roubar a inextinguível fome?

Inextinguível, porque pede
Um pão que nos excede:
Um pão que ninguém dá
Nem tirará.

Podes furtar-me todos os proveitos,
Expropriar-me, até, dos meus direitos!
Aos ventos darei eu meus gritos e canções,
E os ventos lhes farão mil edições.

Podes calar-me com mordaças,
Tu, que és mortal.... e passas.
Passas, ao passo que o meu grito
Percute ao longo do Infinito...

Podes acorrentar-me às rochas das montanhas,
Por abutres roendo-me as entranhas!
Como das flores espalha o pólen,
O vento espalhará o sémen do Homem...

Podes cobrir-me o nome de impropérios;
Tu, que és senhor de impérios,
Negar ao pobre o seu só bem: a fama.
Não brilha o sol na própria lama?

Pode tirar-me paz, saúde, e a própria vida.
Ai pedra sepulcral assaz fendida!
Que ao Cristo lhas tiraram.
Perderam-se e O ressuscitaram.

Podes, às minhas cinzas, recobri-las
De terra e pedras; difundi-las
Pelos desertos sem oásis!
Não sabes que é mortal tudo que fazes?

És sempre o mesmo, tu, cujas razões supremas
São mordaças, grilhões, vendas, algemas.
Mártir, rebelde, poeta, - também eu
Sou sempre o mesmo Um que não morreu.

Porquê? Porque ao morrer, dos céus,
Lhe diz o próprio Deus:
"Filho, vem até mim!
"A História principia onde eles põem: fim."

 [In A Chaga do Lado Sátiras e Epigramas de José Régio, Lisboa: Portugália Editora, 1954, pp. 81-83]. 
Howard Pyle

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...