quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Edmond Jabès

ROSTOS PARA ANTONIO SAURA, 1987 (Excerto)

... esse mundo tem um rosto: o nosso.

Vira, para mim, teu rosto.
O universo é, de verdade, tão pequeno?

O rosto envelhece com o nome já velho.

Estrangeiro. E tanto tenho errado. E, quantas vezes, reedificado?

Que tenho eu, ah, dizei, vós que me conhecestes, que tenho eu guardado para mim?

Absolutidade do Nada.

Tivéramos nossos reis.
Mas esses reis estão mortos.
Tivéramos nossos príncipes.
Mas esses príncipes pereceram.
Tivéramos nossos sábios.
Mas, sábios, eles viraram a página de sua vida. 
Fôramos um povo.
Mas esse povo se dispersou.
Somos o livro, 
no coração do incêndio.

Com as chamas que, uma noite, lamberam nossos livros, pintaremos, sobre cada guarda-fogo, um rosto vivaz.

In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, p. 138

ANTONIO SAURA




terça-feira, 20 de agosto de 2013

Arthur Rimbaud

Canção da Mais Alta Torre

Juventude ociosa
Escrava e submissa, 
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Com corações que se apaixonam.

Disse a mim mesmo: abandona,
E que ninguém te veja:
Nem mesmo a promessa
De alegrias mais altas.
Que nada te prenda, ou pare
Sublime retirada.

Dei tantas mostras de paciência
Que tudo eu para sempre olvide;
Temores e dores
Volatizaram-se nos céus.
Mesmo se uma sede doentia
Me obscurece as veias.

Assim o Prado
Deixado ao abandono,
Maturado e enflorido,
De cores-odores e ervas daninhas,
Entregue ao zumbido ensurdecedor
e cem moscas nojentas.

Ah! Mil vezes viúvo
Da trist’alma nua
Sem outra imagem
Que a da Senhora Mãe!
Será que se ora
À Virgem Maria?

Juventude ociosa
Escrava e submissa,
Por delicadeza,
Deixei fugir a minha vida.
Ah!, venha esse tempo
Em que os corações se apaixonam.

in O Rapaz Raro. Tradução:  Maria Gabriela Llansol




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Attila József

3.
te amo como a mãe ama em silêncio seu menino, 
como as cavernas suas profundezas,
como os cômodos à luz, 
como o  espírito à chama e o corpo ama o repouso. 

Guardo teus sorrisos, tuas idas e vindas, tuas palavras
como a terra guarda os objetos que caem em seu seio.
Em meus instintos gravei
como  ácidos no metal,
tua doce imagem:
lá teu ser  preenche a tudo que é essencial.

Os instantes passam ruidosamente,
mas tu ficas, silenciosa,  em meus ouvidos.
As estrelas se acendem e se apagam, 
mas tu permaneces  em meus olhos.
Como o silêncio em uma gruta
teu gosto flutua cálido em minha boca,
erguem um vaso de água tuas mãos,
e nelas tua fina rede de veias,
recompõem a aurora por momentos. 

Ode - (fragmento)

Sobre o autor

Kazimir Malevich


domingo, 18 de agosto de 2013

Valery Larbaud

ALMA PERDIDA
A vós, aspirações vagas; entusiasmos;
cismas depois do almoço; impulsos do coração;
enternecimento que vem com a satisfação
das necessidades naturais; clarões de gênio; apaziguamento
da digestão bem feita; alegrias sem causa;
distúrbios da circulação do sangue; recordações de amor;
perfume de benjoim do banho matinal; sonhos de amor;
minha enorme molecagem castelhana, minha imensa
tristeza puritana, meus gostos especiais:
chocolate, bombons, doces de derreter, bebidas geladas;
charutos entorpecentes e vós, acalentadores cigarros;
alegrias da velocidade; doçura de ficar sentado; delícia
do sono na completa escuridão;
grande poesia das coisas; noticiário de polícia; viagens;
tziganos; passeios de trenó; chuva no mar;
loucura da noite febril, sozinho com alguns livros;
oscilações do temperamento e do tempo;
instantes de outra vida, reaparecidos; recordações, profecias;
ó esplendor da vida comum e do ramerrão quotidiano,
a vós esta alma perdida.

In Poesia Traduzida, Carlos Drummond de Andrade, São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 211


ODILON REDON

sábado, 17 de agosto de 2013

Hélia Correia

29.

«Que o meu corpo não seja», escreveu ele,
«Levado, entregue a túmulo inglês.»
Mas foi. Que pode um voto, que podia
Um último poema, dito a custo,
Por quem se ergueu do leito nessa casa
Que o fogo em breve iria destruir,
O que pode o desejo contra a ordem?
Que segurou nos braços essa Grécia
A quem ele deu tudo, quando as urnas,
A do corpo e a das vísceras embarcaram?
Ficou, pois já o tinham oferecido
Em pedaços, ao povo, o órgão duplo,
O da inspiração, esse em que o ar
Transportador da musa, se demora
No milagre da química, esse, sim,
Perdido para sempre, ali ficou.


In A Terceira miséria, Lisboa, Relógio d´água, 2012



rachelle

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Maria do Sameiro Barroso

ABÓBADAS IMPRECISAS

Sobre um leito de açucenas, as cicatrizes amontoam-se.
Nos fluidos imperceptíveis, a penumbra dispersa
os antigos turbilhões, cobertos de ramagens lúgubres,
e os ranúnculos sacodem o ar, a noite das avencas,
a boca toda sem pressa de concluir a palavra,
o limite, a suavidade;

o mar suspenso entre constelações preciosas,
as palavras crescendo,
a terra vibrando num ritual análogo de velas, redes,
sargaços, sulcando a luz, os sons do nevoeiro;

os cachos, as páginas, os frutos revolvidos
diante do maravilhoso enigma da relva que respira
e vive, no lacre silencioso, fechado numa garrafa de mar.

Nas antigas gretas da geada, há borboletas rosadas,
inesperadas lunações, cristais preciosos
e a vida pode ser o início, um princípio,
entre feridas sem regresso, abóbadas imprecisas,
guizos que chocalham

pássaros ungidos com água de chuva,
insectos sobre os nenúfares lavrando a caligrafia
ardente, sublime,

sob a lua abundante que segreda uniões.

In “Meandros Translúcidos"



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

José Jorge Letria

TEORIA GERAL DA CHUVA
A chuva não sabe enterrar os mortos
nem apagar a dor de quem os chora.
É torrencial e abrupta como a paixão
invernosa dos amantes sem remorso.
À noite oiço-a bater no telhado, sincopada,
com a sua presença felina e esquiva,
e cada gota é uma sílaba, um aviso,
um compasso triste de um alonga espera.
E a chuva vai e volta, herdeira
da pureza das fontes e da saudade das águas.
Vêm os mortos e lavam-se na chuva,
com os seus cântaros e as suas conchas,
com os seus crepes e com os seus murmúrios.
Por vezes, acende-se uma luz dentro da chuva
e a noite torna-se retangular e ostensiva,
sem nada que a comprometa com a ternura.
Escancara as portas e expulsa os intrusos.
Nunca procurei ninguém nos recantos da chuva,
nem nas folhas do chá, nem na insónia
das bebidas espessas e recônditas.
A chuva aprendeu a lavar as almas,
mas depressa se esqueceu do método e da hora,
porque é leviana e volátil como os corpos
que se entregam e se esgotam no furor da conquista.
Foi a chuva que me encheu a boca
de vocábulos lamacentos e brutais
que não são sequer dignos do leitor.


oo00oo

AS CIDADES CÚMPLICES
As cidades são a minha fuga, o meu refúgio,
o meu lugar de não ter nome, de não ter casa.
Fujo para as cidades para me perder de mim,
para só me encontrar nos livros que trago
dos esconderijos mais secretos das cidades.
As cidades são as minhas cúmplices. Elas sabem-no.
Tal como acontece com os livros,
sei que nem dez vidas me chegariam para as ler,
para as aprender, para me apaixonar por elas.
São amores fugazes, apressados, indolores.
Não deixam cicatrizes nem remorsos. Apagam-se devagar,
como os círculos ou as estrelas desenhadas a giz
no quadro mais negro do negrume da tristeza.
As cidades são o cálice minguado
em que entorno a luz em vez de vinho,
em que derramo a espuma em vez do néctar.
Retrato-as, retrato-me nelas vorazmente,
sempre a cores, junto das fontes, à porta das catedrais,
sobre as pontes, encostado às estátuas
que dão sombra à sonolência alada dos pombos doentes.
Eu nunca trago as cidades comigo.
Deixo nelas, como penhor da alma, o fio de uma saudade
que o tempo se encarrega de cortar
no ponto em que a ausência sabe a mágoa.

oo00oo

SOBRE OS POETAS QUE INVENTAM
Tenho na mesa uma estrela do mar
e na almofada uma rosa dos ventos.
Tudo me sabe a viagem, mesmo quando
permaneço imóvel, separando no cais
o centeio e o vinho, a pimenta e o ouro.
Não fui almirante de nenhuma armada
nem grumete de nenhum naufrágio;
fui a nau frágil da loucura das ondas,
o albatroz rendido ao chamamento do longe,
a sereia apodrecida nas redes da faina.
Nesse tempo em que eu era tudo e não era nada,
em que existia somente na perdição dos mapas,
vinham as viúvas chorar por mim
com lágrimas do tamanho de pérolas,
do tamanho de conchas no desespero das dunas.
Ai dos poetas que se alimentam apenas do vivido,
ai dos olhos vencidos pela evidência do real.
Eu sou dos que inventam, dos que sempre inventaram,
dos que não podem ser levados a sério,
mesmo quando vestem a roupagem da tristeza absoluta.
Um poeta não pode resumir-se ao que é tangível,
sob pena de ser pequeno de mais para caber num verso.

In Produto Interno Lírico, Lisboa: Visão-Frente e Verso, 2010, p.11-12, 24,33.

Sobre o Autor






Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...