O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira —
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos — Deus tem as mãos grandes.
[In O canto do vento nos ciprestes, São Paulo, Escrituras, 2008, p. 13]
sábado, 7 de junho de 2014
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Boris Pasternak
A FAMA É RELES
Ter fama é reles; a escalada
ao apogeu segue outras leis.
Arquivos não servem de nada,
Não tremas sobre os teus papéis.
Criar é se entregar de todo,
e não sucesso ou alarido.
É vergonhoso, sendo engodo,
virar provérbio difundido.
Cumpre viver, mas sem disfarce,
para atrair-se enfim o puro
amor do espaço ou escutar-se
o apelo, ao longe, do futuro.
Deixa as lacunas no destino,
nas obras, não. Qualquer passagem,
qualquer capítulo ou domínio
de tua vida – anota à margem.
Some no anonimato e esconde
teus passos como sítio oculto
por brumas muito espessas onde
não há como entrever seu vulto.
Outros, que irão por tua rota,
seguem teu rastro, passo a passo.
Mas não te cabe ser quem opta
entre um sucesso ou um fracasso.
Não rendas nunca, por motivo
algum, teu rosto, tua estrada;
prossegue vivo, apenas vivo
até o fim, vivo e mais nada.
(1956)
QUERO CHEGAR
Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.
Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.
Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.
E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos.
Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.
Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.
Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em seqüência.
E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.
Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.
O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.
(1956)
Tradução Boris Schnaiderman
SOBRE BORIS PASTERNAK
Ilustração Nikolai Milioti
Ter fama é reles; a escalada
ao apogeu segue outras leis.
Arquivos não servem de nada,
Não tremas sobre os teus papéis.
Criar é se entregar de todo,
e não sucesso ou alarido.
É vergonhoso, sendo engodo,
virar provérbio difundido.
Cumpre viver, mas sem disfarce,
para atrair-se enfim o puro
amor do espaço ou escutar-se
o apelo, ao longe, do futuro.
Deixa as lacunas no destino,
nas obras, não. Qualquer passagem,
qualquer capítulo ou domínio
de tua vida – anota à margem.
Some no anonimato e esconde
teus passos como sítio oculto
por brumas muito espessas onde
não há como entrever seu vulto.
Outros, que irão por tua rota,
seguem teu rastro, passo a passo.
Mas não te cabe ser quem opta
entre um sucesso ou um fracasso.
Não rendas nunca, por motivo
algum, teu rosto, tua estrada;
prossegue vivo, apenas vivo
até o fim, vivo e mais nada.
(1956)
QUERO CHEGAR
Quero chegar em tudo ao cerne,
ao mais oculto.
Buscando a rota, no afazer, no
peito em tumulto.
Ao bojo dos dias de outrora,
ao próprio centro,
justo às raízes e às escoras,
medula adentro.
Sempre agarrando toda a série
de sinas, fatos,
sentir, pensar, amar, viver e
fazer achados.
E escreveria, ah, se o lograsse,
sobre os diversos
dons da paixão, de todo ou quase,
em oito versos.
Seus crimes, fugas e caçadas,
seus atropelos
acidentais, mãos espalmadas
e cotovelos.
Deduziria a essência inata
e as suas leis,
diria a inicial de cada
nome outra vez.
Dispondo cantos em canteiros,
com veias tensas,
veria as tílias: o horto inteiro
posto em seqüência.
E verteria, em verso, aromas
de rosa e menta,
prado, flor, feno e quanto assoma
numa tormenta.
Assim Chopin verteu – portento
vivo – seu mundo,
sítios, jazigos, bosques, dentro
de seus estudos.
O jogo e o suplício do afã de
vencer de fato –
a corda retesa e vibrante
do arco dobrado.
(1956)
Tradução Boris Schnaiderman
SOBRE BORIS PASTERNAK
Ilustração Nikolai Milioti
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Luiz Ruffato
Pisas comedida etéreos
espaços em busca de pássaros
que à mão se dissolvem.
Catalogas emoções
estendendo esteiras
nas noites insones.
E as pacíficas aventuras
em que te envolves
são vagas a bater eternamente
em rochedos de um mar absoluto.
Se tens nos olhos espalmados
a felicidade adstringente, ó Súcubus,
por que a procuras em raios de sol
que não campos de trigo?
[In As máscaras singulares, São Paulo, Boitempo, 2002, p. 34]
SOBRE LUIZ RUFFATO
espaços em busca de pássaros
que à mão se dissolvem.
Catalogas emoções
estendendo esteiras
nas noites insones.
E as pacíficas aventuras
em que te envolves
são vagas a bater eternamente
em rochedos de um mar absoluto.
Se tens nos olhos espalmados
a felicidade adstringente, ó Súcubus,
por que a procuras em raios de sol
que não campos de trigo?
[In As máscaras singulares, São Paulo, Boitempo, 2002, p. 34]
SOBRE LUIZ RUFFATO
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Franz Toussaint
A FONTE DAS GAZELAS
Elas só vêm beber quando cai o crepúsculo. Uma a uma e inquietas elas surgem das sombras procurando uma nesga de céu refletido na fonte.
Assim esperas a noite para penetrares em minha casa, e antes de me beijares a boca, procuras ver em meus olhos o encantamento da minha alma!
Sobre FRANZ TOUSSAINT
[In O Jardim das Carícias, tradução de Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, José Olympio, 1938, p. 130]
Elas só vêm beber quando cai o crepúsculo. Uma a uma e inquietas elas surgem das sombras procurando uma nesga de céu refletido na fonte.
Assim esperas a noite para penetrares em minha casa, e antes de me beijares a boca, procuras ver em meus olhos o encantamento da minha alma!
Sobre FRANZ TOUSSAINT
[In O Jardim das Carícias, tradução de Adalgisa Nery, Rio de Janeiro, José Olympio, 1938, p. 130]
terça-feira, 3 de junho de 2014
Valery Larbaud
A MÁSCARA
Escrevo sempre tendo a máscara no rosto;
sim, essa máscara à antiga moda veneziana,
longa, de testa baixa,
sim, essa máscara à antiga moda veneziana,
longa, de testa baixa,
como um grande focinho de cetim branco.
Sentado à mesa e levantando a cabeça,
contemplo-me no espelho, de frente
e de três quartos, e vejo
esse perfil infantil e bestial que eu amo.
Sentado à mesa e levantando a cabeça,
contemplo-me no espelho, de frente
e de três quartos, e vejo
esse perfil infantil e bestial que eu amo.
Oh, que um leitor, meu irmão, a quem eu falo
através da máscara pálida e brilhante,
venha depor um beijo longo e lento
sobre a testa apertada e essa face tão pálida,
a fim de calcar mais fortemente sobre o meu
esse outro rosto perfumado e oco.
através da máscara pálida e brilhante,
venha depor um beijo longo e lento
sobre a testa apertada e essa face tão pálida,
a fim de calcar mais fortemente sobre o meu
esse outro rosto perfumado e oco.
[In Poesia Traduzida, Carlos Drummond de Andrade, São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 209]
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Jacques Prévert
CAFÉ DA MANHÃ
Pôs café
na xícara
Pôs leite
na xícara com café
Pôs açúcar
no café com leite
Com a colherzinha
mexeu
Bebeu o café com leite
E pôs a xícara no pires
Sem me falar
acendeu
um cigarro
Fez círculos
com a fumaça
Pôs as cinzas
no cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.
[In Poemas, Jacques Prévert, Seleção e Tradução de Silviano Santiago, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 107-109]
Pôs café
na xícara
Pôs leite
na xícara com café
Pôs açúcar
no café com leite
Com a colherzinha
mexeu
Bebeu o café com leite
E pôs a xícara no pires
Sem me falar
acendeu
um cigarro
Fez círculos
com a fumaça
Pôs as cinzas
no cinzeiro
Sem me falar
Sem me olhar
Levantou-se
Pôs
o chapéu na cabeça
Vestiu
a capa de chuva
porque chovia
E saiu
debaixo de chuva
Sem uma palavra
Sem me olhar
Quanto a mim pus
a cabeça entre as mãos
E chorei.
[In Poemas, Jacques Prévert, Seleção e Tradução de Silviano Santiago, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p. 107-109]
domingo, 1 de junho de 2014
Ailton Volpato
GRAMÁTICA
O gosto mascado de um verbo impronunciável -/ morde a língua do lápis/ ao traçar no papel/ um poema silenciado, silenciador,/ ainda que sejam três incoerentes versos,/ a existir em seus duetos/ de uma compreensão e muitas incompreensões:/ linguístico fantasma reticente/ a perturbar o sono de um papel manchado./
de testemunho em testemunho/ se diz a inaudita obra,/ certas palavras que emergem do abismo/ grafado em históricas durações;/ e se abatem como ondas despenteadas/ a resvalar nos cimos das pedras,/ rochas a dizer água às águas./
e o poeta, um pedaço de pedra/ tingido na maresia do tempo/ aprende a sentir como o limo tocado/ a amaciar os dedos frágeis da criança/ no descobrimento das letras - /
gramática litorânea de mar e areia.
Eis quando um poema/ é da desordem do absurdo.
O gosto mascado de um verbo impronunciável -/ morde a língua do lápis/ ao traçar no papel/ um poema silenciado, silenciador,/ ainda que sejam três incoerentes versos,/ a existir em seus duetos/ de uma compreensão e muitas incompreensões:/ linguístico fantasma reticente/ a perturbar o sono de um papel manchado./
de testemunho em testemunho/ se diz a inaudita obra,/ certas palavras que emergem do abismo/ grafado em históricas durações;/ e se abatem como ondas despenteadas/ a resvalar nos cimos das pedras,/ rochas a dizer água às águas./
e o poeta, um pedaço de pedra/ tingido na maresia do tempo/ aprende a sentir como o limo tocado/ a amaciar os dedos frágeis da criança/ no descobrimento das letras - /
gramática litorânea de mar e areia.
Eis quando um poema/ é da desordem do absurdo.
© Ailton Volpato
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