sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Guillaume Apollinaire

AS JANELAS
Do vermelho ao verde todo amarelo morre
Quando cantam as araras nas florestas natais
Cavalos-de-frisa de pihis
Aves chinesas de uma asa só voando em dupla
É preciso um poema sobre isso
Enviaremos mensagem telefônica
Traumatismo gigante
Faz escorrer os olhos
Garota bonita entre jovens turinenses
O moço pobre se assoava na gravata branca
Você vai erguer a cortina
E agora veja a janela se abre
Aranhas quando as mãos teciam a luz
Beleza palidez insondáveis violetas
Tentaremos em vão ter algum descanso
Vamos começar à meia-noite
Quando se tem tempo tem-se a liberdade
Marisco Lampreia múltiplos
Sóis e o Ouriço do crepúsculo
Um velho par dc sapatos amarelos diante da janela
Tours
A Torres são as ruas
Poços / Depois
São praças lugares
Depois / Poços
Árvores ocas que abrigam alcaparras vagabundas
Os Chabinos cantam árias de morte
Às Chabinas fugitivas
E a gansa uá-uá trombeta ao norte
Onde os caçadores de roedores
Raspam as pelúcias
Faiscante diamante
Vancouver
Onde o trem branco de neve e fogos noturnos fogem do inverno
Ó Paris
Do vermelho ao verde todo jovem perece
Paris Vancouver Hyères Maintenon Nova York e as Antilhas
A janela se abre como uma laranja
O belo fruto da luz

[In 31 poetas 214 poemas, antologia de poemas com notas e comentário de Décio Pignatari, São Paulo, Companhia das Letras, 1997. pp.109-110]


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Manuel Fernando Alves

Poema E
O ângulo onde a arvore baloiça
E o exacto lugar do sono a sombra
O centro do mundo e em qualquer parte
E tudo existe la fora
Por não caber cá dentro
Por isso se avista a vida a retalho
E cada momento um recomeço
E cada lembranca uma praga
O copo de água sobre a mesa
Sorvendo o futuro pela sede
De serem longos os dias
E o preco do vinho pela hora da morte

Poema D
Vou ter de forçar este poema
Deve haver uma cegueira de muita luz
E muitos poetas escrevendo ao mesmo tempo
De se entupir a mente de Deus
A palavra amor um guardachuva revirado pelo vento
Tão doce o sumo da romã
Dedilhado o fruto através da dúvida
Faltam cinco versos em forma
Engrossando folha a folha o outono da minha mente
E Dickens tem de pagar a conta do talho
Não há maneira de lá chegar sem
Esmolas da História o preso habituado as algemas

[Publicados com licença do autor]. 



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Luiza Neto Jorge

RECANTO 2
Viver, entretanto, é ver, ir vendo
e também ver inclui dormir
sem que nada se desfaça ou exclua
no interior dos sonhos.

Pensemos no comércio de viver:
passagem dos navios
quando, a passar, se retém a espessa
água do tempo, da tempestade.

Um comércio, apenas — desvio da moeda
da trajectória do ouro
para o papel.

Sempre viver incluiu andar percorrer voar
de avião ou com os braços ou num ser de mais
rodas que nos conduza
a outro sentido ambulatório.

[In Poesia (1960-1989), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 179]






domingo, 21 de setembro de 2014

Else Lasker-Schüler

ESTER 

Ester é esbelta como a palmeira brava,
Os pés de trigo têm o cheiro dos seus lábios,
E os dias de festa que em Judá se celebram.

De noite, o seu coração repousa sobre um salmo,
Os ídolos escutam nas salas do palácio.

O rei sorri se vai ao seu encontro —
O olhar de Deus está sempre posto em Ester.

Os judeus jovens fazem canções à irmã,
Gravam-nas nas colunas da sua antecâmara.

[In Baladas Hebraicas, tradução e apresentação de João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 77].

By Francois-Leon Benouville

sábado, 20 de setembro de 2014

Jorge de Lima

37

Vinde vós das cidades para o campo
onde existe a aventura da malária.
Foi em agosto, o lago respirando
que ouvi no sangue a mais formosa ária.

E vi mais um ginete galopando
num ocaso de sangue iluminado;
era o tempo mais ouro das queimadas,
e as geórgicas se enchiam de piratas.

Deram-nos tudo: frêmitos e prata
e certo afã de lírios encarnados.
Que madura estação provisionada!

Que lagunas noturnas sobre as frontes!
Que mãos frias errando no ar parado!
Que sibilos de medos e de fontes!


[In Invenção de Orfeu, São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 88]



sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ana Hatherly

A MATÉRIA DAS PALAVRAS

Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
                                                                        perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.


[In O Pavão Negro,  Assírio & Alvim, 2003]

SOBRE ANA HATHERLY





segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Margarita Aliger

DE PRIMAVERA EM LENINGRADO

No curso daquele longo inverno
você repetia, voz serena,
esmagando-lhe a treva de ferro:
“Resistiremos. Somos de pedra”.
Estreitava-se o anel venenoso.
O inimigo sempre mais chegado.
Podíamos vê-lo rosto a rosto,
feroz, como fazem os soldados.
Leningrado sem luz e sem água!
Rações de pão:cento e vinte gramas...
Como animal ferido o céu gane,
céu mortiço, nuvens estagnadas.
As pedras suspiram,
lajes ringem,
e a gente encontra força e vive.
Os mortos se empilham, um a um,
guerreiros numa cova comum.
Afinal cansou-se o próprio inverno.
Os turvos horizontes se abriram.
E surgem casas negras do inferno
das bombas. Mortas. Não resistiram.
E vamos nós dois passando pontes
sob a asa triunfal de maio,
você se alegrava sem dar conta
do porquê desse sentir-se gaio.
Uma nuvem mostrou-se no alto,
uma brisa esfriou-nos os lábios.
Falávamos ambos num sussurro
do tempo passado e do futuro.
Vadeamos uma longa treva,
passamos pelas balas em crivo:
Você dizia: “Somos de pedra”.
É mais do que pedra.
Estamos vivos.
1942

[Tradução de Haroldo de Campos]



















Margarita Aliger nasceu em Odessa no ano de 1915. Foi operária, bibliotecária e jornalista. Já em meados da década de 1930, fez estudos de Literatura em Moscou. Tornou-se conhecida durante a II Guerra Mundial, muito por culpa de um poema, Zoyá, sobre uma jovem estudante enforcada pelos nazis. Zoyá foi publicado em 1942. Faleceu no dia 1 de Agosto de 1992.

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...