ABRIR DE OLHOS
Pensamento dando para pensamento
Faz de alguém um olho.
Um é a mente cega-de-si,
O outro é pensamento ido
Para ser visto de longe e não sabido.
Assim se faz um universo brevemente.
A suposição imensa nada em círculos,
E cabeças ficam mais sábias
Enquanto notam a grandeza,
E a dimensão imbecil
Espaça a Natureza,
E ouvidos reportam primeiro os ecos,
Depois os sons, distinguem palavras
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas
Como por encanto.
E assim falsos horizontes se ufanam em ser
Distância na cabeça
Que a cabeça concebe lá fora.
O maravilhar-se, que escapa dos olhos,
Regressa a cada lição.
O tudo, antes segredo,
Agora é o conhecível,
A vista da carne, a grandeza da mente.
Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mundamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável.
SOBRE LAURA RIDING
(In Revista Poesia Sempre, tradução de Rodrigo Garcia Lopes)
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Ricardo Pedrosa Alves
INEVITÁVEL MAIS DESEJOS
Tudo o que girassóis vêm nascendo
mais cedo que reluzem o pó de tudo,
prevê-se, cilícios em que o medo se escarlate
nas cócegas de nunca arder
Vida de escandir ondas nos vincos dos dedos
e ilíadas para a pele
Ser na berlinda entrepistas
de morenas taísas pitonisas:
o fúlgido agouro tatuado, cada luz
de palavra rompendo nada o osso,
caldos de mais-cores banhando
a pele-escorpião
Agora faina do fluxo-gêiser verbo e tal
versejo e tal até que daí
erupção o sumo o suco podre das significações,
verseja-se, cábula das semelhanças,
fendendo realismos ismos
Tudo o reluzem, vinde nascente
mais ouro cedo do sol:
na tua luz que, ei-las, asas
saem caudalosas
em flagrante flamância
OLHO EMPECILHO DO OLHAR E O MAR DA ONDA
SEM MAR
Como apresentar o ar que se estilhaçando
quase flocos e furto ao caos,
sempre espicaçado, flor que transpetalada
peça o céu de gotas de nada?
No furo fundo da voz é menos falar
de brisa que giz insista como grito
vagir-se em segredo.
Pequeno valer-se do corpo fosse farsa,
a verdade é sobrevoo e
procurando o sonho é hipocampo sem asas,
porém inflado e à luz alado.
Então pior que saia a sombra
do corpo, giros dos cascos do vento,
surpresa vai-se fotocravejada,
cravejada, fóssil histérico
de novo em convulsão
(In Desencantos mínimos, São Paulo: Iluminuras, 1996, pp. 38-39)
Ricardo Pedrosa Alves nasceu em Governador Valadares (MG), em 1970. É graduado em Sociologia, pela Unicamp. Seu primeiro livro se intitula Desencantos mínimos (São Paulo: Iluminuras, 1996).
Tudo o que girassóis vêm nascendo
mais cedo que reluzem o pó de tudo,
prevê-se, cilícios em que o medo se escarlate
nas cócegas de nunca arder
Vida de escandir ondas nos vincos dos dedos
e ilíadas para a pele
Ser na berlinda entrepistas
de morenas taísas pitonisas:
o fúlgido agouro tatuado, cada luz
de palavra rompendo nada o osso,
caldos de mais-cores banhando
a pele-escorpião
Agora faina do fluxo-gêiser verbo e tal
versejo e tal até que daí
erupção o sumo o suco podre das significações,
verseja-se, cábula das semelhanças,
fendendo realismos ismos
Tudo o reluzem, vinde nascente
mais ouro cedo do sol:
na tua luz que, ei-las, asas
saem caudalosas
em flagrante flamância
OLHO EMPECILHO DO OLHAR E O MAR DA ONDA
SEM MAR
Como apresentar o ar que se estilhaçando
quase flocos e furto ao caos,
sempre espicaçado, flor que transpetalada
peça o céu de gotas de nada?
No furo fundo da voz é menos falar
de brisa que giz insista como grito
vagir-se em segredo.
Pequeno valer-se do corpo fosse farsa,
a verdade é sobrevoo e
procurando o sonho é hipocampo sem asas,
porém inflado e à luz alado.
Então pior que saia a sombra
do corpo, giros dos cascos do vento,
surpresa vai-se fotocravejada,
cravejada, fóssil histérico
de novo em convulsão
(In Desencantos mínimos, São Paulo: Iluminuras, 1996, pp. 38-39)
Ricardo Pedrosa Alves nasceu em Governador Valadares (MG), em 1970. É graduado em Sociologia, pela Unicamp. Seu primeiro livro se intitula Desencantos mínimos (São Paulo: Iluminuras, 1996).
domingo, 21 de dezembro de 2014
Clarice Lispector
Daniel era um menino estranho, sensível e orgulhoso, difícil de se amar. Ele não sabia dar um pretexto para esconder. Mesmo quando caía em fantasias estas eram precavidas, familiares; ele não tinha coragem de inventar e era sempre ela quem numa facilidade surpreendente mentia pelos dois; ele era sincero e duro, detestava o que não via. Com seus olhos limpos e secos vivia como só com Virgínia dentro da Granja. Desde que a irmã nascera ele a tomara e secretamente ela era apenas sua. Ainda muito pequena, os cabelos compridos e sujos nos olhos, as pernas curtas hesitando sobre os pés descalços, ela agarrava com uma das mãos os fundos das calças de Daniel e o irmão, o rosto queimado e sem doçura, os olhos seguros, subia pelas encostas das montanhas, com movimentos obstinados como se não sentisse o peso de Virgínia, a inclinação resistente dos morros, o vento que soprava firme e frio contra o seu corpo. Não a amava sequer mas ela era doce e tola, fácil de se conduzir a qualquer ideia. E mesmo nas épocas em que ele se fechava severo e bruto dando-lhe ordens, ela obedecia porque sentia-o perto de si, ocupando-se dela — ele era a criatura mais perfeita que ela conhecia. Passava então os dias numa estranha euforia, como o vento, alta, calma e silenciosa. Deus meu, não sabia ela que pensava, ela só tinha ardor, nada mais, nem mesmo um motivo. E ele — ele só tinha raiva, nada mais, nem mesmo um motivo. Apesar de tudo Daniel pisava sem forca, permitia que nela vivesse aquele seu desespero desajeitado e atento, uma aguda fraqueza, a possibilidade de perceber pelo nariz, de pressentir dentro do silêncio, de viver profundamente sem executar um movimento. E de fechada num quarto estar em perigo. Sim, sim, aos poucos, baixo, de sua ignorância ia nascendo a ideia de que possuía uma vida. Era uma sensação sem pensamentos anteriores nem posteriores, súbita, completa e una, que não poderia se acrescentar nem alterar com a idade ou com a sabedoria. Não era como viver, viver e então saber que possuía uma vida, mas era como olhar e ver de uma só vez. A sensação não vinha dos fatos presentes nem passados mas dela mesmo como um movimento. E se morresse cedo ou se enclausurasse, o aviso de ter uma vida valia como ter vivido. Por isso também ela era um pouco cansada talvez, desde sempre; às vezes só por um esforço imperceptível mantinha-se à tona. E acima de tudo, sempre fora séria e falsa.
(Excerto de O LUSTRE, 3a. ed. José Alvaro: Rio de Janeiro, 1967, pp. 24-25)
By MARTIN STRANKA
(Excerto de O LUSTRE, 3a. ed. José Alvaro: Rio de Janeiro, 1967, pp. 24-25)
By MARTIN STRANKA
sábado, 20 de dezembro de 2014
Alberto Bresciani
MITOLOGIA
O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)
Conhecendo também
suas entranhas, armadilhas
saliências e entraves
eu o escalo
até o alto
onde ameias são faces tantas
e arranham ou assaltam
a vida
Lá, debruço-me
pendo, estico-me
jogo as mãos
a pele
e mesmo que não encontre
matéria de igual trama
ainda tenho
céu, vento, ar
ou desejo e dúvida e ilusão
Este (é um murmúrio)
o meu plano de voo
ramo de salvação
Sim, no relume das horas
arranco uma ou outra
de suas plumas e
do cimo
sinto
o doce estrépito
de um corpo
que arde e responde
sob o meu.
HALO
Para Maria de Assis Calsing
Essa casa não tem janelas
não tem portas, paredes
A solidez rejeita a ameaça
mas não pesa sobre a água
Translúcido é o nome solto no ar
no perfume, nas açucenas
Leve e diáfana casa
aninha o que flutua, o que não cai
tudo nela germina e enflora
abriga sim e a tudo afirma
E nela, clara casa, não há não
caminhos se abrem
e sopram à cálida folhagem
a brisa, a carícia do lago
Sobre ela, firme e branda casa,
palavras brincam com a luz
são imagens que a alma canta
(e eu digo: alada mão as deixou).
[In Incompleto Movimento, Rio de Janeiro: José Olympio, 2011, pp. 24-25, 33, 64]
O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)
Conhecendo também
suas entranhas, armadilhas
saliências e entraves
eu o escalo
até o alto
onde ameias são faces tantas
e arranham ou assaltam
a vida
Lá, debruço-me
pendo, estico-me
jogo as mãos
a pele
e mesmo que não encontre
matéria de igual trama
ainda tenho
céu, vento, ar
ou desejo e dúvida e ilusão
Este (é um murmúrio)
o meu plano de voo
ramo de salvação
Sim, no relume das horas
arranco uma ou outra
de suas plumas e
do cimo
sinto
o doce estrépito
de um corpo
que arde e responde
sob o meu.
HALO
Para Maria de Assis Calsing
Essa casa não tem janelas
não tem portas, paredes
A solidez rejeita a ameaça
mas não pesa sobre a água
Translúcido é o nome solto no ar
no perfume, nas açucenas
Leve e diáfana casa
aninha o que flutua, o que não cai
tudo nela germina e enflora
abriga sim e a tudo afirma
E nela, clara casa, não há não
caminhos se abrem
e sopram à cálida folhagem
a brisa, a carícia do lago
Sobre ela, firme e branda casa,
palavras brincam com a luz
são imagens que a alma canta
(e eu digo: alada mão as deixou).
MARGHE(RITA)
Não
valem os dias
além
dos corações
que
neles batem
São
caminhos
Essa
única vista
me
verte o sim
Você
fala por ela
e
repete as imagens
A
porta que abre
verdeja
e
floresce
para
dentro do corpo
história
maior
do
que antigas lembranças
Do
teu nome,
margaridas
nascem sobre a lava.
[In Incompleto Movimento, Rio de Janeiro: José Olympio, 2011, pp. 24-25, 33, 64]
sexta-feira, 19 de dezembro de 2014
Cesare Pavese
A VOZ
Cada dia o silêncio do quarto isolado
se recolhe no leve marulho dos gestos
como o ar. Cada dia a estreita janela
se abre imóvel ao ar que se cala. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.
O ar imóvel se abre ao alento de quem
vai falar e se cala. É assim todo dia.
E a voz é a mesma, mas não rompe o silêncio,
rouca e igual como sempre na imobilidade
da memória. A clara janela acompanha
com sua breve batida o antigo sossego.
Cada gesto percute o antigo sossego.
Se soasse a voz, voltariam as dores.
Voltariam os gestos no ar espantado
e palavras, palavras à voz submissa.
Se essa voz ressoasse, até a breve batida
do silêncio que dura seria uma dor.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 269)
Cada dia o silêncio do quarto isolado
se recolhe no leve marulho dos gestos
como o ar. Cada dia a estreita janela
se abre imóvel ao ar que se cala. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.
O ar imóvel se abre ao alento de quem
vai falar e se cala. É assim todo dia.
E a voz é a mesma, mas não rompe o silêncio,
rouca e igual como sempre na imobilidade
da memória. A clara janela acompanha
com sua breve batida o antigo sossego.
Cada gesto percute o antigo sossego.
Se soasse a voz, voltariam as dores.
Voltariam os gestos no ar espantado
e palavras, palavras à voz submissa.
Se essa voz ressoasse, até a breve batida
do silêncio que dura seria uma dor.
(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 269)
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
Helder Magalhães
POEMA PARA DIZER NATAL
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
vêm adorá-lo
tocam-lhe a melodia dos anjos
sobre a cicatriz exposta
lateja mais forte
que as baladas que o anunciam
o pai é-o sem ter sido filho
e a mãe cose-lhe botões e botões
de flores
trago um menino no peito
rebenta-lhe o choro de ver a luz
do parto todos os dias
os dedos cobertos de musgo
peregrinos do rosto
submerso em um líquido
de matéria interestelar
a casa compreende-se entre
paredes de silêncio e águas-furtadas
a céu aberto
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
arranham uma fome
e um frio de deslumbre
há-de cumprir-se pela gotícula
do orvalho sobre o jarro
aberto.
(Poema reproduzido com autorização do autor)
Ilustração: Rogier van der Weyden (1400-1464), São Lucas desenha a Virgem, têmpera, no Museu de Belas Artes de Boston.
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
vêm adorá-lo
tocam-lhe a melodia dos anjos
sobre a cicatriz exposta
lateja mais forte
que as baladas que o anunciam
o pai é-o sem ter sido filho
e a mãe cose-lhe botões e botões
de flores
trago um menino no peito
rebenta-lhe o choro de ver a luz
do parto todos os dias
os dedos cobertos de musgo
peregrinos do rosto
submerso em um líquido
de matéria interestelar
a casa compreende-se entre
paredes de silêncio e águas-furtadas
a céu aberto
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
arranham uma fome
e um frio de deslumbre
há-de cumprir-se pela gotícula
do orvalho sobre o jarro
aberto.
(Poema reproduzido com autorização do autor)
Ilustração: Rogier van der Weyden (1400-1464), São Lucas desenha a Virgem, têmpera, no Museu de Belas Artes de Boston.
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
Elizabeth Bishop
| ANÁFORA In memoriam de Marjorie Carr Stevens |
|||
Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde esta força, esta melodia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”
Logo, logo ela surge, e assume
sua natureza terrena
e cai vítima da intriga,
sob o ônus da memória,
da mortal, mortal fadiga.
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”
Logo, logo ela surge, e assume
sua natureza terrena
e cai vítima da intriga,
sob o ônus da memória,
da mortal, mortal fadiga.
Mais lentamente,
aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
imerso em estupendos estudos:
este incandescente evento
de cada dia em constante
constante consentimento.
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
imerso em estupendos estudos:
este incandescente evento
de cada dia em constante
constante consentimento.
[In Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 161]
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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