terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Laura Riding

ABRIR DE OLHOS

Pensamento dando para pensamento 
Faz de alguém um olho. 
Um é a mente cega-de-si, 
O outro é pensamento ido 
Para ser visto de longe e não sabido. 
Assim se faz um universo brevemente.

A suposição imensa nada em círculos,
E cabeças ficam mais sábias
Enquanto notam a grandeza,
E a dimensão imbecil
Espaça a Natureza,

E ouvidos reportam primeiro os ecos,
Depois os sons, distinguem palavras
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas
Como por encanto.
E assim falsos horizontes se ufanam em ser
Distância na cabeça
Que a cabeça concebe lá fora.

O maravilhar-se, que escapa dos olhos,
Regressa a cada lição.
O tudo, antes segredo,
Agora é o conhecível,
A vista da carne, a grandeza da mente.

Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mundamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável.

SOBRE LAURA RIDING
(In Revista Poesia Sempre, tradução de Rodrigo Garcia Lopes)


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ricardo Pedrosa Alves

INEVITÁVEL MAIS DESEJOS
Tudo o que girassóis vêm nascendo
mais cedo que reluzem o pó de tudo,
prevê-se, cilícios em que o medo se escarlate
nas cócegas de nunca arder
Vida de escandir ondas nos vincos dos dedos
e ilíadas para a pele
Ser na berlinda entrepistas
de morenas taísas pitonisas:
o fúlgido agouro tatuado, cada luz
de palavra rompendo nada o osso,
caldos de mais-cores banhando
a pele-escorpião
Agora faina do fluxo-gêiser verbo e tal
versejo e tal até que daí
erupção o sumo o suco podre das significações,
verseja-se, cábula das semelhanças,
fendendo realismos ismos
Tudo o reluzem, vinde nascente
mais ouro cedo do sol:
na tua luz que, ei-las, asas
saem caudalosas
em flagrante flamância

OLHO EMPECILHO DO OLHAR E O MAR DA ONDA
SEM MAR

Como apresentar o ar que se estilhaçando
quase flocos e furto ao caos,
sempre espicaçado, flor que transpetalada
peça o céu de gotas de nada?

No furo fundo da voz é menos falar
de brisa que giz insista como grito
vagir-se em segredo.

Pequeno valer-se do corpo fosse farsa,
a verdade é sobrevoo e
procurando o sonho é hipocampo sem asas,
porém inflado e à luz alado.

Então pior que saia a sombra
do corpo, giros dos cascos do vento,
surpresa vai-se fotocravejada,
cravejada, fóssil histérico
de novo em convulsão

(In Desencantos mínimos, São Paulo: Iluminuras, 1996, pp. 38-39)

Ricardo Pedrosa Alves nasceu em Governador Valadares (MG), em 1970. É graduado em Sociologia, pela Unicamp.   Seu primeiro livro se intitula Desencantos mínimos (São Paulo: Iluminuras, 1996). 

 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Clarice Lispector

Daniel era um menino estranho, sensível e orgulhoso, difícil de se amar. Ele não sabia dar um pretexto para esconder. Mesmo quando caía em fantasias estas eram precavidas, familiares; ele não tinha coragem de inventar e era sempre ela quem numa facilidade surpreendente mentia pelos dois; ele era sincero e duro, detestava o que não via. Com seus olhos limpos e secos vivia como só com Virgínia dentro da Granja. Desde que a irmã nascera ele a tomara e secretamente ela era apenas sua. Ainda muito pequena, os cabelos compridos e sujos nos olhos, as pernas curtas hesitando sobre os pés descalços, ela agarrava com uma das mãos os fundos das calças de Daniel e o irmão, o rosto queimado e sem doçura, os olhos seguros, subia pelas encostas das montanhas, com movimentos obstinados como se não sentisse o peso de Virgínia, a inclinação resistente dos morros, o vento que soprava firme e frio contra o seu corpo. Não a amava sequer mas ela era doce e tola, fácil de se conduzir a qualquer ideia. E mesmo nas épocas em que ele se fechava severo e bruto dando-lhe ordens, ela obedecia porque sentia-o perto de si, ocupando-se dela — ele era a criatura mais perfeita que ela conhecia. Passava então os dias numa estranha euforia, como o vento, alta, calma e silenciosa. Deus meu, não sabia ela que pensava, ela só tinha ardor, nada mais, nem mesmo um motivo. E ele — ele só tinha raiva, nada mais, nem mesmo um motivo. Apesar de tudo Daniel pisava sem forca, permitia que nela vivesse aquele seu desespero desajeitado e atento, uma aguda fraqueza, a possibilidade de perceber pelo nariz, de pressentir dentro do silêncio, de viver profundamente sem executar um movimento. E de fechada num quarto estar em perigo. Sim, sim, aos poucos, baixo, de sua ignorância ia nascendo a ideia de que possuía uma vida. Era uma sensação sem pensamentos anteriores nem posteriores, súbita, completa e una, que não poderia se acrescentar nem alterar com a idade ou com a sabedoria. Não era como viver, viver e então saber que possuía uma vida, mas era como olhar e ver de uma só vez. A sensação não vinha dos fatos presentes nem passados mas dela mesmo como um movimento. E se morresse cedo ou se enclausurasse, o aviso de ter uma vida valia como ter vivido. Por isso também ela era um pouco cansada talvez, desde sempre; às vezes só por um esforço imperceptível mantinha-se à tona. E acima de tudo, sempre fora séria e falsa.

(Excerto de O LUSTRE, 3a. ed. José Alvaro: Rio de Janeiro, 1967, pp. 24-25)

By MARTIN STRANKA

sábado, 20 de dezembro de 2014

Alberto Bresciani

MITOLOGIA

O muro não me libertará
(sei porque sou tempo)

Conhecendo também
suas entranhas, armadilhas
saliências e entraves

eu o escalo
até o alto
onde ameias são faces tantas
e arranham ou assaltam
a vida

Lá, debruço-me
pendo, estico-me
jogo as mãos
a pele

e mesmo que não encontre
matéria de igual trama
ainda tenho

céu, vento, ar
ou desejo e dúvida e ilusão

Este (é um murmúrio)
o meu plano de voo
ramo de salvação

Sim, no relume das horas
arranco uma ou outra
de suas plumas e
do cimo
sinto

o doce estrépito
de um corpo
que arde e responde
                 sob o meu.

HALO
Para Maria de Assis Calsing

Essa casa não tem janelas
não tem portas, paredes

A solidez rejeita a ameaça
mas não pesa sobre a água

Translúcido é o nome solto no ar
no perfume, nas açucenas

Leve e diáfana casa
aninha o que flutua, o que não cai

tudo nela germina e enflora
abriga sim e a tudo afirma

E nela, clara casa, não há não
caminhos se abrem

e sopram à cálida folhagem
a brisa, a carícia do lago

Sobre ela, firme e branda casa,
palavras brincam com a luz

são imagens que a alma canta
(e eu digo: alada mão as deixou).

MARGHE(RITA)

Não valem os dias
além dos corações
que neles batem
São caminhos

Essa única vista
me verte o sim
Você fala por ela
e repete as imagens

A porta que abre
verdeja
e floresce
para dentro do corpo

história maior
do que antigas lembranças

Do teu nome,
margaridas nascem sobre a lava.

[In Incompleto Movimento, Rio de Janeiro: José Olympio, 2011, pp. 24-25, 33, 64]




sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Cesare Pavese

A VOZ

Cada dia o silêncio do quarto isolado
se recolhe no leve marulho dos gestos
como o ar. Cada dia a estreita janela
se abre imóvel ao ar que se cala. A voz
rouca e doce não volta no fresco silêncio.

O ar imóvel se abre ao alento de quem
vai falar e se cala. É assim todo dia.
E a voz é a mesma, mas não rompe o silêncio,
rouca e igual como sempre na imobilidade
da memória. A clara janela acompanha
com sua breve batida o antigo sossego.

Cada gesto percute o antigo sossego.
Se soasse a voz, voltariam as dores.
Voltariam os gestos no ar espantado
e palavras, palavras à voz submissa.
Se essa voz ressoasse, até a breve batida
do silêncio que dura seria uma dor.

(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 269)



quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Helder Magalhães

POEMA PARA DIZER NATAL

trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
vêm adorá-lo
tocam-lhe a melodia dos anjos
sobre a cicatriz exposta
lateja mais forte
que as baladas que o anunciam
o pai é-o sem ter sido filho
e a mãe cose-lhe botões e botões
de flores
trago um menino no peito
rebenta-lhe o choro de ver a luz
do parto todos os dias
os dedos cobertos de musgo
peregrinos do rosto
submerso em um líquido
de matéria interestelar
a casa compreende-se entre
paredes de silêncio e águas-furtadas
a céu aberto
trago um menino no peito
e os dedos cobertos de musgo
arranham uma fome
e um frio de deslumbre
há-de cumprir-se pela gotícula
do orvalho sobre o jarro
aberto.
(Poema reproduzido com autorização do autor)
Ilustração: Rogier van der Weyden (1400-1464), São Lucas desenha a Virgem, têmpera, no Museu de Belas Artes de Boston.  





quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Elizabeth Bishop

ANÁFORA
In memoriam de Marjorie Carr Stevens

Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde esta força, esta melodia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”
Logo, logo ela surge, e assume
          sua natureza terrena
          e cai vítima da intriga,
          sob o
ônus da memória,
          da mortal, mortal fadiga.

Mais lentamente, aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
          imerso em estupendos estudos:
          este incandescente evento
          de cada dia em constante
          constante consentimento.

[In Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 161]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...