segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Fany Aktinol

Somos filhos do tempo infinito,
de um tempo que traz sabedoria e leveza,
mas tornei-me criatura tão frágil -
qualquer um pode perceber -
que desmorono ao acaso,
a um lance de dados,
se não respondes
ao meu aceno
quando estás
a meu lado.

Por nada, eu sei, por nada
desmorono numa implosão silenciosa
flutuo ao sabor do vento
perdida de mim
desesperançada de ti
até que o sopro do vento
me carregue daqui.


domingo, 11 de janeiro de 2015

Mário Cesariny

DE PROFUNDIS AMAMUS
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua    os costumes

O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal    abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados    maravilhosos    únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

SOBRE MÁRIO CESARINY



                        

sábado, 10 de janeiro de 2015

Alda Merini

Os poetas trabalham de noite
quando o tempo não os aperta,
quando se cala o barulho da multidão
e termina o linchamento das horas.

Os poetas trabalham no escuro
como nocturnos falcões ou rouxinóis
de dulcíssimo canto,
temendo ofender a Deus.

Os poetas, no entanto, com seu silêncio
fazem bem mais barulho
do que uma cúpula dourada de estrelas.

SOBRE ALDA MERINI

[Fonte: blog Rua das Pretas]
Tradução: Albino M. 




quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Giorgos Seféris

PRIMAVERA DEPOIS DE JESUS CRISTO

Com a primavera de novo
Ela vestiu cores vivas
E com um passo ligeiro
Com a primavera de novo
Com o verão de novo
Ela se pôs a sorrir.

Entre os renovos
Os seios nus até as veias
Para além da noite árida
Para além dos anciões brancos
Chicaneando em voz baixa para saber
Se não valia mais entregar as chaves
Ou esticar a corda e pendurar-se
E não deixar senão corpos vazios
Onde a alma não mais aguentaria
Onde o espírito faltaria
Onde os joelhos se dobrariam.

Na estação dos renovos
Os anciãos perderam a cabeça
E entregaram tudo absolutamente
Netos, bisnetos,
Campos profundos e montanhas verdes,
O amor e a abundância,
A piedade e o abrigo,
Os rios e os mares,
E partiram como estátuas
Deixando atrás de si o silêncio
Que nenhuma espada cortou
Que nenhum galope arrastou
Nem o grito dos adolescentes;
E veio a grande solidão
E veio a grande privação;
Ao mesmo tempo que essa primavera
Ela se estabeleceu, ela se estendeu
Como a geada da aurora
Suspendeu-se dos mais altos ramos,
Nas árvores insinuou-se
E revestiu nossa alma inteira.

Mas ela, sorriu,
Enfeitada de cores vivas
Qual amendoeira florida
Entre chamas amarelas
E foi-se com passo ligeiro
Abrindo janelas
Para o céu que ria
Sem nós, os infelizes.
E vi seu peito nu,
Suas ancas e seus joelhos,
Tal, subindo aos céus
Escapa às torturas
O mártir irredutível
Irredutível e puro,
Fora dos murmúrios confusos da multidão
Na arena desmedida
Fora da careta negra
E da nuca em suor
Do carrasco extenuado
De golpear cada vez em vão.

A solidão tornou-se um lago,
A privação tornou-se um lago,
Um lago virgem e sem rugas.

[Poemas Giorgos Seféris,  sel., trad. e notas de José Paulo Paes, São Paulo: Nova Alexandria, 1995, pp. 143-144]. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Hélio Pellegrino

SOFRENDO A NOITE
"... agora, é apenas meu coração que
está palpitando no mundo."

Emílio Moura

Sou uma lâmpada votiva ardendo ardendo,
murmúrios e mistérios da noite vibram em mim.
Todo o mundo em meu corpo, toda a vida:
amores e pecados, dores, morte
— uma vida ou uma lentíssima agonia?
Sinto na carne vigílias maceradas
gritos que eu grito, soluços que eu soluço,
esgares gargalhados que laceram
entram-me no ouvido, pelo sangue, na alma,
Na alma em abandono. Em silêncio o mundo
tão cheio de presságios, de ódios e silêncio.
Mistérios e traições da noite, a todos sofro
como o último dos desgraçados.
Não aves, não flores, não carinhos
mas o negrume, a solidão, este abandono
na noite eterna.
Desde sempre a sofri, não mais me deixará,
Serei o holocausto dos que agora
Esquecem a noite.
E nem poder lançar o olhar em busca das estrelas.
(Vejo além das estrelas)

O VAGABUNDO POETA
Cantarei a erva nos pastos
E o crescimento do sol, com
Suas ramas ríspidas. Cantarei os
Caninos do lobo, e o reflexo de
Sua fome, temperada de duro
Azul. Cantarei a eficácia da
Pedra e o clarão áspero de sua
Nudez. Cantarei algumas palavras, ao
Acaso inscritas num muro, e o silvo
Das locomotivas transviadas, e o vazio
De deus no mundo, e a liberdade na
Morte. Cantarei — sim, cantarei — os
Regalos do homem, seus pulmões absurdos,
O couro de seus sapatos e a vertigem
De sua marcha — extinto diamante.

(In Minérios domados, poesia reunida, seleção e edição de Humberto Werneck, Rio de Janeiro: Rocco, 1993, pp. 204-205)




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ivan Junqueira

Ó MEMÓRIA INSEPULTA
Ó memória insepulta nas areias
da praia a que regresso, mas não ouço
ali a voz dos ventos, o balouço
da espuma nas espáduas das sereias.
Ó memória da infância sob as teias
que as aranhas teceram rente ao poço
do jardim: ervas, lodo, o calabouço
onde se afiam os punhais, as meias
palavras, as intrigas cujas veias
vertem ódios tão duros quanto um osso
e tudo o que separa, fundo fosso,
as coisas puras das mais vis e feias.
Ó memória que augura: ainda és moço,
e a velhice é tão só outro alvoroço.

(In Essa música, Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 47)




Mariana Ianelli: Um legado de afeto e pensamento do poeta e crítico Ivan Junqueira

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Giacomo Leopardi

A NOITE DO DIA DA FESTA

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
– E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição – dirijo os olhos.
“Para você, nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho,
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Só penso em como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, onde tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

(Tradutor:  Décio Pignatari)

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...