terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Nelly Sachs

Morte
cântico de mar
banhando-me o corpo em volta
uva salgada
a atrair sede na minha boca —

Feres as cordas das minhas veias
até que elas cantando rebentam
desabrochando das chagas
pra tocar a música do meu amor —

Os teus horizontes em leque desdobrados
com a coroa dentada do morrer
já posta em volta do pescoço
o ritual da partida
com o som regougado da respiração
começado
abandonaste como um sedutor
antes do casamento a vítima enfeitiçada
despida quase já até à areia
expulsa
de dois reinos
já só suspiros
entre noite e noite —

[In Poesias, Tradução de Paulo Quintela, Estudo introdutivo de Joseph Bernfeld, Ilustrações de Jean-Michel Perche, Rio de Janeiro, Ed. Opera Mundi, 1975, p. 160]


domingo, 25 de janeiro de 2015

Marguerite Yourcenar

FRAGMENTO DE "MEMÓRIAS DE ADRIANO"

Como toda gente, não disponho senão de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de si mesmo, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que se arranjam frequentemente para ocultar-nos seus segredos ou por nos fazer crer que os têm; os livros, com os erros peculiares de perspectiva que surgem entre suas linhas. Li quase tudo que nossos historiadores, poetas e narradores escreveram, embora estes últimos tenham reputação de frívolos. A todos devo talvez mais informações do que as recolhidas nas mais diversas situações da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a apreciar a voz humana, tanto quanto a grande imobilidade das estátuas levou-me a valorizar os gestos. Em compensação, e no decorrer dos tempos, a vida me fez compreender os livros.

Mas estes mentem, ainda os mais sinceros. Os menos hábeis, na falta de palavras e frases com que possam representá-la, traçam da vida imagem pobre e vulgar. Alguns, como Lucano, fazem-na pesada e obstruída por uma solenidade que ela não possui. Outros, pelo contrário, como Petrônio, fazem-na leve, transformando-a numa bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais suave, por isso mesmo diferente do nosso e, na prática, quase inabitável. [...]

[In Memórias de Adriano, Tradução de Martha Calderaro, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, 15a. ed,  p. 30]



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cesare Pavese

VERÃO
Há um claro jardim entre muros baixos,
de ervas secas e luz, que aos poucos cozinha
sua terra. É uma luz que tem gosto de mar.
Tu respiras a erva tocando os cabelos
e espantando a lembrança.

                                     Eu já vi despencar
muitos frutos, doces, sobre a relva caseira,
com um baque. E assim tu igualmente estremeces
ao soluço do sangue. Balanças a testa
como envolta num denso prodígio aéreo
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
na lembrança serena em teus olhos.

                                                    Escutas.
As palavras que escutas te tocam de leve.
Tens no rosto calmo uma ideia clara
que desenha em teus ombros o brilho do mar.
Tens no rosto um silêncio que aperta o peito
com um baque e lhe extrai uma dor antiga
como o suco dos frutos caídos outrora.


(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 165)


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Luís Filipe Pereira

Acendo o significado

E chego à escotilha nítida da treva fotográfica
Para ignorar-te como pássaro desmemoriado
Que viesse debicar nos versos a noite em elipse
E beber na varanda efervescente a moratória acrobática

Volteio na poalha inebriada do álbum insone
Do quarto inóspito
Que balança
No dorso das dedadas
De um barco matinal

Apago o sentido

E seguro o rumor dos teus ombros
Que obliquam nas vértebras do poema
Se afastam até às ossadas
De uma página ilesa.


*****

São fragílimas as aves do estio,
São puro segredo em suspensão no pericarpo do ar,
Duração de uma força tão leve
Que é fonte levitando
Nos triângulos cálidos dos telhados.

Asas dispostas sobre as asas
Quais sombras desarrumadas sob as sombras
Ou vogais que deflagram

Se visitam umas às outras
Numa imóvel profusão
De vozes polínicas
Pernoitando no silêncio fendido
Noutras bocas.

*****

Quando líamos na prosa dos nossos corpos
Volumes de melancolia do Bósforo nunca navegado
A minha atenção voltava-se,
Ígnea e azul,
Para as linhas da tua boca
Em dias de Outubro concentradas
Na ténue, fugidia,
Fosca carne do silêncio
Da tarde, dos remos da claridade,
Do amor.

Líamos como se durasse a exaltação das páginas lidas
Entre mastros e poros,
Pontes e salivas,
Como se durasse o desejo
Além do fim.

Quando líamos no presente dos corpos
O futuro incaducável
Procurávamos
A Istambul visitada
Em livros de Orhan Pamuk,
Um tempo emboscado,
Um sinal temido de viagem,
A fluvial essência do mistério
Ou uma desolação.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Nikos Kazantzákis

 EXCERTO DE "RELATÓRIO AO GRECO"

No Monte Athos, um monge pegou minha mão para, disse ele, ler a minha sorte; realmente, seu rosto era de um cigano, preto, redondo, grossos lábios de bode e olhos que lançavam chamas.
—    Não acredito em magia - disse-lhe rindo.
—    Não faz mal, eu acredito e isso chega.
Olhou as linhas de minha mão, suas estrelas, suas cruzes, suas linhas.
—    Não se meta, - disse depois de estudá-la bem - não se meta onde não é chamado; você não foi feito para a ação, fique longe; você não pode lutar com os homens; enquanto luta, vai sempre pensar que seu inimigo pode ter razão e, mesmo que não goste dele, vai sempre perdoá-lo. Entendeu?
—    Continue! - disse-lhe porque estava meio perturbado, pois, vi que esse monge, que me via pela primeira vez, tinha razão.
Observou atentamente a palma da minha mão;
—    Muitas preocupações o torturam, você pede muito, pergunta muito, consome o seu coração; pelo bem que te quero, não se apresse a encontrar a resposta; não é você que tem que ir buscá-la, é ela que deve vir a você; ouça o que estou dizendo, está vindo alguma coisa muito tranquila. Ouve mais uma palavra que, um dia, o abade me disse: um monge, durante toda a sua vida, ansiava por Deus e, apenas quando estava lutando com a morte, percebeu que era Deus que ansiava por ele.
Inclinou-se de novo, sobre a minha mão, arregalou os olhos e olhou para mim:
—    Você - disse - vai ser monge na velhice. Não ria, você vai ser monge.
Uma profecia mentirosa pode, num momento qualquer, se tornar verdadeira,
é só você acreditar nela. Lembrei-me da profecia da parteira no meu nascimento, olhou-me na luz e disse; “Essa criança, um dia, será bispo”. Assustei-me.
—    Eu não quero - gritei, e arranquei minha mão como se sentisse cheiro do perigo.
Com a passagem do tempo, esqueci-me disso, o mesmo aconteceu com as palavras do monge que, esta noite, de repente, vieram à minha mente, quis rir, mas, não consegui; ao que parece, elas trabalhavam em silêncio durante todo esse tempo e me empurravam para onde eu não queria ir; não podia mais rir.
Fechei os olhos para que o sono viesse e me salvasse.
Eu era, dizem, um rebelde, me perseguiam pelas ruas de uma grande cidade, pegaram-me,  julgaram-me, condenaram-me à morte. O carcereiro me pegou,  colocou-me à sua frente, ele vinha atrás com o chicote no ombro; eu corri. “Por que você está correndo?” perguntou o carcereiro, que já estava ficando ofegante. “Estou com pressa” respondi, “estou com pressa”. E, antes que eu tivesse terminado a frase, um ventinho fresco soprou e o carcereiro desapareceu. Não era um carcereiro, era uma nuvem negra que se espalhou. Eu queria prosseguir, mas não podia; uma montanha toda de pedras agudas apareceu na minha frente e fechou o meu caminho. No cimo da montanha, tinha uma bandeira vermelha. Eu disse: “Tenho que subir para poder prosseguir em nome de Deus!”. Fiz o sinal da cruz e comecei a subir; mas, os pregos dos meus coturnos batiam nas pedras e levantava faísca. Eu subia, subia, escorregava, caía, tornava a subir. E, quando cheguei perto do pico, vi, não era uma bandeira, era um chama. Subia e tinha meus olhos fixos no pico; não, não era chama, via-o claramente agora, era Deus, mas não o Pai, o outro, o terrível Jeová, que me esperava.
O sangue me gelou nas veias; por um momento, pensei em voltar; fiquei com vergonha. “Agora,” murmurei, “já era... Continue em frente!” “Você não está com medo?” ouvi uma voz feminina dentro de mim. “Sim, tenho medo!” gritei tão alto e com tanta angústia que acordei.
[In RELATÓRIO AO GRECO, tradução direta do grego por Lucilia Soares Brandão, introdução de Carolina Dônega Bernardes, Rio de Janeiro: Cassará, 2014, p. 244].



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Helder Magalhães

pouco sabemos
guarnecemos o poema em papel
vegetal
na esperança que
as palavras amoleçam
ou o bolor
cresça entre as fendas

se o poema estiver quente
o tempo encarregar-se-á
de guardar as lágrimas

as nuvens carregam canções
ânsia de donzelas
ao parapeito da janela
como se antecipassem a chuva
pelos mancebos
que cavam na terra o destino
dos pés a caminho da guerra

pouco sabemos
embrutecidos pela ferrugem
e osso do silêncio
que sepultámos na tracção
da saliva
garganta abaixo

*****
na certeza das manhãs, alui-se-me
o sonho. os olhos
debruçados da janela para a rua
alcançam os pingos
de chuva a sumirem nas cabeças
sem chapéu. inunda-se-me
a alma entre a espessura baça
do vidro da janela e
o caleiro.
num instante do vazio, rio,
porque isso do choro é um soro,
que anestesia candida
-mente.
cérebros há que estão enxutos e
desertos, outros pântanos
de areias movediças. eu
comovo-me.

*****
que a voz da palavra te seja mosto
a fermentar na garganta
o vinho encarregar-se-á de ser corpo à boca

não receies a espera
o tempo que demora a ser
só os elefantes sabem o percurso da morte

faz o caminho
ainda que as faces ásperas
as mãos hão-de burilar a pedra
e o rosto luz.

noticiam a probabilidade de cair
neve
espero que não seja mais uma
precipitação
que ainda não me recompus
da última queda
e à poesia supus todos
os precipícios.

*****
dormes
o devir da respiração
no vale entre os teus seios
um rio
pele a luzir todas as estrelas

dormes
na cama a que nus nos entregámos
e te velava o sono
da aurora da noite
ao sol do amanhecer
e eu resistia a dormir
para me cobrir no lençol
que da tua boca
se tecia

dormes
sou um coração ao relento
apenas com o tecto dos teus olhos
e o choro do orvalho na madrugada.

Lilian Westcott Hale. Pinterest



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Marize Castro

AO CAIR DA NOITE
Se amo muito é porque tudo me falta. Transporto ouro, ostras, seixos, salivas, ânforas. O gozo dos leopardos leva-me para arriscados córregos. Lá, moças uivam, rapazes flamejam; cavalos voam; hóstias e granizos soltam-se de rochas perdidas. Ouço uma canção de ninar; sou eu quando criança, brincando com a grande baleia que me visitava quando o oceano enfurecia-se e os homens extraviam-se. Minhas guelras, ainda secretas, foram retiradas ao cair da noite. Tornei-me senhora de penhascos. De onde estou, ouço o choro do sol: neblinas exultam; amantes despedem se; crisálidas desnudam-se; pétalas caem — lentamente — sobre frágil mármore.
[In Esperado Ouro, Natal, RN: UNA, 2005, p. 111]

INTEIRA
Iluminada por oráculos
alimento anjos com asas quebradas.

Não é de vendaval que eu preciso
mas da língua do amor guardada à beira-mar.

Não entendo de círios
mas de verões e sargaços bailarinos.

Acolhida pela província,
arrisco-me a enlaçar orquídeas em árvores.

Sempre sofri.
Sempre tive febre.
Sempre estive inteira em todos os infernos
Nunca quis ser abandonada.
Mas aprendi a perder.

O naufrágio me ensinou a ternura dos afogados.

[In Esperado Ouro,  Natal, RN: UNA,  2005, p. 99]


Hiram Pascal - Pinterest

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...