segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ana Luísa Amaral

PASSOS DE VELUDO (título póstumo)

Do not go gently into that good night
Dylan Thomas
Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso a almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.

[In Inversos poesia 1990-2010, Lisboa: Dom Quixote, 2010, p. 209]


sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Sebastião Uchoa Leite

EXERCÍCIOS NUMA MESA METAFÍSICA
Inclinado, numa cadeira entrançada,
fixava absorto o emaranhado da mesa
como se pretendesse adivinhar,
na permanência das fibras,
algo impermeável à sua vista.
Talvez a própria mesa se dissolvesse no tempo,
as tranças do assento, o mosaico xadrez,
a obsessão do finito.
Talvez um excesso de luz ou de sombra
o privasse da visão final
e uma profunda morosidade
o acolhesse.
A tarde era cheia de carícias.
Absorto numa mesa de cantina,
com lascivo pendor para objetos
fixados na imobilidade.
Em tudo um espírito erradio, mas
um ser engarrafado
com a própria liquidez
que toma a forma das coisas.

[In Obra em Dobras, São Paulo, Duas Cidades, 1988, p. 167]


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Inácio Quinaud

ORAÇÃO AO GRANDE RIO

Sobre o teu dorso, São Francisco imenso,
arfa o vapor, gemendo, trepidante,
num arrojo sem fim que, às vezes, penso
ver lutar um anão contra um gigante.

Tuas águas brilhantes como espelho,
que a mão de Deus poliu para um Titã,
refletem, tontas, o clarão vermelho
do sol que espalha as luzes da manhã.

Galhos secos de palma e de mamona,
troncos fortes, capim, velhas ramagens,
fazem, sempre, aos magotes, mil viagens,
em ziguezagues pela tua tona.

E louco brames e sussurras manso,
na agonia medonha de um forçado,
fertilizando este sertão talado,
numa canseira que não tem descanso.

Segues, rindo e chorando, estranhos trilhos,
enchendo vales e cortando serras,
mas deixas, pronto, na aridez das terras,
o pão que mata a fome dos teus filhos.

No barranco das margens, vilarejos
branqueiam, tristes, o verdor da penha,
e labutam, calados, sertanejos,
em longas filas, arrumando lenha.

Longe em longe, na mata, eis as taperas,
de que nos contam esquisitas lendas,
aventuras sublimes e tremendas,
que se passaram em remotas eras.

Marinheiros, soturnos, em voz baixa,
sufocando, no peito, infinda mágoa,
a beber grandes goles de cachaça,
contam cousas terríveis da “Mãe d’Água”.

O Mistério e o Pavor voam, contentes,
batendo as asas, ao sabor do rio,
deixando atrás de si chocar de dentes,
c à flor da pele estranho calafrio.

Soprando o vento há uivos e gemidos,
preces de dor e gritos de revolta,
a matilha infernal que a Noite solta,
a chocalhar os seus grilhões partidos.

Foge o rio tremendo e os afluentes,
como filhos que voltam para o lar,
tombam, cegos, no rio, a soluçar
queixas distantes de distantes gentes. 

O lamento longínquo dos cocais,
que moram, longe, nas estreitas trilhas,
anda a correr, sem rumo, nestas ilhas,
rememorando os nossos ancestrais.

O tormento sem fim das gerações
que primeiro sulcaram estas águas,
vive agora nas grotas e nas fráguas,
na tristeza saudosa dos sertões .

Mas, esta dor das gerações primeiras,
rompendo a crosta da melancolia,
há de morrer e terminar, um dia,
no ribombo imortal das cachoeiras.

E o rio seguirá, de ora em diante,
levando a vida, por ai além,
na expectativa de um Supremo Bem,
que lhe premie o seu labor constante.

***

São Francisco, ó tu, que embalaste o sono
do meu berço risonho de criança,
dá-me paz, dá-me fé, dá-me esperança,
tu, que vives, também, ao abandono.

Quisera que meu corpo, liquefeito,
rolasse junto com as tuas águas,
despedaçando este montão de mágoas,
que oprime a mente c que me entulha o peito.

Não ser e não sentir, emoliente,
gigantesco, sublime, pardo, informe,
a distender o meu perfil enorme,
na paz segura de quem nada sente.

São Francisco, meu São Francisco-rei,
meu grande rio a que eu adoro tanto,
teu filho volta mergulhado em pranto ,
atrás de um sonho que eu aqui sonhei.

Se eu pudesse, também, banhar minha alma,
como banho meu corpo na corrente,
talvez que um dia me voltasse a calma
e a esperança para a minha mente.

E o tumulto incessante que me mata,
talvez cessasse, como cessa o grito,
do cão-de-caça, quando se desata
a peia atroz que o segurava, aflito.

E eu seguisse, de novo, já liberto
da mágoa infinda que carrego em mim,
na tentativa de alcançar um fim,
de que, às vezes, — quem sabe? — estive perto.

São Francisco, meu grande São Francisco,
lava meu coração, como costumas,
sob os raios do sol ou entre brumas,
lavar das margens os montões de cisco. 

Apaga no meu ser qualquer lembrança,
como quem sopra a chama de uma vela,
partindo tudo o que me prende a ela,
pois que ele é Luz e a Luz nunca se alcança.

Ouve o clamor medonho do meu ser,
já que um amor, como o meu, assim, ardente,
só a ti pode ter por confidente,
tu, rio imenso que me viu nascer.

Leva contigo, para o mar distante,
a mágoa oculta que te vim contar,
pois a dor que te conto, neste instante,
só cabe, toda, na amplidão do mar.

Na mesma unção de quem desfia um terço,
vim buscar, no teu seio, o Esquecimento,
ó rio que conheces meu tormento,
tu, que embalaste o sono do meu berço.

Não me deixes voltar cheguei,
alma plena de dor e de descrença,
faze que agora o meu orgulho vença,
meu Rio-Pai, meu São Francisco-Rei.

Ouve a prece dorida do teu filho,
que te vem procurar neste momento:
— mostra a meu coração o novo trilho,
onde se encontra o Grande Esquecimento!

[In OSCILAÇÕES, Pirapora, Minas, novembro de 46, pp. 183-187]



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Primo Levi

FRAGMENTO DE "A TRÉGUA"

Se em Szób embarcáramos um hóspede, depois de Munique percebemos que havíamos embarcado uma ninhada inteira: nossos vagões não eram mais sessenta, mas sessenta e um. No fim do trem, viajava conosco para a Itália um vagão novo, apinhado de jovens judeus, meninos e meninas, provenientes de todos os países da Europa Oriental.  Nenhum deles aparentava ter mais que vinte anos, mas eram pessoas extremamente seguras e decididas: eram jovens sionistas, iam para Israel, passando por onde podiam e abrindo caminho como podiam.Um navio esperava-os em Bari: haviam comprado o vagão, e engatá-lo ao nosso trem foi a coisa mais simples do mundo: engataram-no simplesmente , sem pedir permissão a mais ninguém. Fiquei assustado, mas riram de meu espanto: “Pois então Hitler não morreu?”, perguntou-me o chefe deles, com o seu olhar imóvel de falcão. Sentiam-se imensamente livres e fortes, donos do mundo  e de seu destino.

Chegamos de noite a Garmisch-Partenkirchen, ao campo de Mittenwald, entre as montanhas, na fronteira austríaca, numa extraordinária desordem.  Aí pernoitamos, e foi a nossa última noite de gelo. No dia seguinte, o trem seguiu para Innsbruck, onde se encheu de contrabandistas italianos, os quais, na ausência das autoridades constituídas, deram-nos os cumprimentos da pátria, e distribuíram generosamente chocolate, aguardente e tabaco.

Na subida para a fronteira italiana o trem, mais cansado do que nós, partiu-se em dois, como um fio demasiadamente esticado: muitos ficaram feridos, e essa foi a última aventura. No meio da noite, passamos o Brenner, que tínhamos atravessado para o exílio vinte meses antes: os companheiros menos sofridos, em alegre tumulto; Leonardo e eu, num silêncio transido de memória. De seiscentos e cinquenta, todos os que então partíramos, voltávamos três. E quanto perdêramos naqueles vinte meses? O que encontraríamos em casa? Quanto de nós fora corroído, apagado? Retornávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos; mas sabíamos que nas soleiras de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma provação, e a antecipávamos com temor. Sentíamos fluir nas veias, junto com o sangue extenuado, o veneno de Auschwitz: onde iríamos conseguir forças para voltar a viver, para cortar as sebes, que crescem espontaneamente durante todas as ausências, em torno de toda casa deserta, de toda toca vazia? Logo, amanhã mesmo, devíamos lutar contra inimigos ainda ignorados, dentro e fora de nós: com que armas, com que energia, com que vontade? Nós nos sentíamos velhos de séculos, oprimidos por um ano de lembranças ferozes, esvaziados e inermes. Os meses transcorridos, embora duros, de vagabundagem às margens da civilização, pareciam agora uma trégua, um parêntese de ilimitada disponibilidade, um dom providencial, embora irrepetível, do destino. 

(In A trégua, Tradução Marco Lucchesi, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 210-211)



Nelly Sachs

Morte
cântico de mar
banhando-me o corpo em volta
uva salgada
a atrair sede na minha boca —

Feres as cordas das minhas veias
até que elas cantando rebentam
desabrochando das chagas
pra tocar a música do meu amor —

Os teus horizontes em leque desdobrados
com a coroa dentada do morrer
já posta em volta do pescoço
o ritual da partida
com o som regougado da respiração
começado
abandonaste como um sedutor
antes do casamento a vítima enfeitiçada
despida quase já até à areia
expulsa
de dois reinos
já só suspiros
entre noite e noite —

[In Poesias, Tradução de Paulo Quintela, Estudo introdutivo de Joseph Bernfeld, Ilustrações de Jean-Michel Perche, Rio de Janeiro, Ed. Opera Mundi, 1975, p. 160]


domingo, 25 de janeiro de 2015

Marguerite Yourcenar

FRAGMENTO DE "MEMÓRIAS DE ADRIANO"

Como toda gente, não disponho senão de três meios para avaliar a existência humana: o estudo de si mesmo, o mais difícil e o mais perigoso, mas também o mais fecundo dos métodos; a observação dos homens, que se arranjam frequentemente para ocultar-nos seus segredos ou por nos fazer crer que os têm; os livros, com os erros peculiares de perspectiva que surgem entre suas linhas. Li quase tudo que nossos historiadores, poetas e narradores escreveram, embora estes últimos tenham reputação de frívolos. A todos devo talvez mais informações do que as recolhidas nas mais diversas situações da minha própria vida. A palavra escrita ensinou-me a apreciar a voz humana, tanto quanto a grande imobilidade das estátuas levou-me a valorizar os gestos. Em compensação, e no decorrer dos tempos, a vida me fez compreender os livros.

Mas estes mentem, ainda os mais sinceros. Os menos hábeis, na falta de palavras e frases com que possam representá-la, traçam da vida imagem pobre e vulgar. Alguns, como Lucano, fazem-na pesada e obstruída por uma solenidade que ela não possui. Outros, pelo contrário, como Petrônio, fazem-na leve, transformando-a numa bola saltitante e vazia, fácil de receber e de atirar num universo sem peso. Os poetas transportam-nos a um mundo mais vasto ou mais belo, mais ardente ou mais suave, por isso mesmo diferente do nosso e, na prática, quase inabitável. [...]

[In Memórias de Adriano, Tradução de Martha Calderaro, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, 15a. ed,  p. 30]



sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cesare Pavese

VERÃO
Há um claro jardim entre muros baixos,
de ervas secas e luz, que aos poucos cozinha
sua terra. É uma luz que tem gosto de mar.
Tu respiras a erva tocando os cabelos
e espantando a lembrança.

                                     Eu já vi despencar
muitos frutos, doces, sobre a relva caseira,
com um baque. E assim tu igualmente estremeces
ao soluço do sangue. Balanças a testa
como envolta num denso prodígio aéreo
e o prodígio és tu. Há um mesmo sabor
na lembrança serena em teus olhos.

                                                    Escutas.
As palavras que escutas te tocam de leve.
Tens no rosto calmo uma ideia clara
que desenha em teus ombros o brilho do mar.
Tens no rosto um silêncio que aperta o peito
com um baque e lhe extrai uma dor antiga
como o suco dos frutos caídos outrora.


(In Trabalhar Cansa, Tradução e introdução Maurício Santana Dias, São Paulo: Cosac Naify, 2009, p. 165)


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...