MONÓLOGO PARA CASSANDRA
Sou eu, Cassandra.
E esta é minha cidade sob as cinzas.
E estes são meu bastão e fitas de profeta.
E esta é minha cabeça cheia de dúvidas.
Triunfo, é verdade.
Minha razão em chamas até lambeu o céu.
Só os profetas desacreditados
têm essa vista.
Só aqueles que tiveram um mau começo,
e tudo podia concretizar-se tão rápido,
como se eles nunca tivessem existido.
Recordo claramente agora
como as pessoas, ao me ver, emudeciam.
Morria-lhes o riso.
Desentrelaçavam as mãos.
As crianças corriam para as mães.
Não sabia sequer seus nomes efêmeros.
E aquela canção sobre a folhinha verde —
ninguém a terminava na minha frente.
Eu os amava.
Mas amava do alto.
Acima da vida.
Do futuro. Onde sempre é vazio
e nada é mais fácil do que ver a morte.
Lamento que minha voz fosse dura.
Olhem para si mesmos das estrelas — bradava
olhem para si mesmos das estrelas.
Escutavam e baixavam os olhos.
Viviam na vida.
Varridos por um grande vento.
Já condenados.
Presos desde nascidos em corpos de despedida.
Mas havia neles uma esperança úmida,
uma chama que se nutre da própria cintilação.
Eles sabiam o que é um instante,
ah, ao menos um, um qualquer
antes que —
Foi como eu falei.
Só que disso não resulta nada.
E estas são minhas vestes chamuscadas.
E estes são meus trastes de profeta.
E esta é minha face contorcida.
Uma face que não sabia que podia ser bela.
In [Um amor feliz], tradução Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2016
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Vladímir Maiakovski
A ti, que cheiras a incenso, cortarei
daqui até ao Alasca!
Deixem-me!
Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem —
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!
Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!
O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.
(1914/1915)
(In Poetas Russos, trad. e prólogo de Manuel de Seabra, Relógio D´Água, Lisboa, 1995)
SOBRE Vladímir Maiakovski
daqui até ao Alasca!
Deixem-me!
Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem —
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!
Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!
O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.
(1914/1915)
(In Poetas Russos, trad. e prólogo de Manuel de Seabra, Relógio D´Água, Lisboa, 1995)
SOBRE Vladímir Maiakovski
domingo, 18 de setembro de 2016
Daniel Faria
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA
DO MENINO JESUS 1
A lâmpada já estava apagada. Certifiquei-me.
Não era um grão, uma vagem aberta nem a manhã.
Esperei para testemunhar a felicidade na luz
Da certeza — sim minha madre tinha vomitado
A claridade do sangue — pensei
É o céu
Era a janela todavia, a enfermidade, a fenda
Voluntária. Não era minha madre
Toda a casa terrestre demolida.
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA DO MENINO JESUS 2
Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para
[a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu
Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência — há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura
Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como a medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro
[In Dos líquidos, 2000]
DO MENINO JESUS 1
A lâmpada já estava apagada. Certifiquei-me.
Não era um grão, uma vagem aberta nem a manhã.
Esperei para testemunhar a felicidade na luz
Da certeza — sim minha madre tinha vomitado
A claridade do sangue — pensei
É o céu
Era a janela todavia, a enfermidade, a fenda
Voluntária. Não era minha madre
Toda a casa terrestre demolida.
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA DO MENINO JESUS 2
Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para
[a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu
Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência — há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura
Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como a medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro
[In Dos líquidos, 2000]
sábado, 23 de julho de 2016
Wislawa Szymborska
NUVENS
Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.
É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.
Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.
flutuam sem esforço sobre os fatos.
Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.
logo se dispersam para todos os lados.
Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.
Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.
Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.
Não precisam ser vistas para navegar.
domingo, 17 de julho de 2016
Ingeborg Bachmann
O TEMPO APRAZADO
Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a tua amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!
Vêm aí dias difíceis.
domingo, 10 de julho de 2016
Miguel Manso
V
desprendeu a crina prateada
frente ao espelho corroído na casinha do pátio
ao pé do lavatório, essa bisavó
magra enigmática
num aceno breve reuniu o que estendeu
no enredo voluminoso de um toucado enquanto
de fora o calor velava um Verão de limoeiros
eu estava no ângulo mais assombrado
da idade cuidando por não ser descoberto
escondido com uns pássaros ao fundo
tão-pouco soubemos avó de poesias
e o que nesse canto me ofereceste devolvo
pior no recanto tardio de uns versos
VI
o ciúme tardio sem motivo
a torpe varonia enroupada na mansidão
em que flagravas
inseguro, em surdina
junto à presença desenvolta da mulher
de quem foste marido e náufrago
e teve contigo, afinal, um amor fiel
fecundo e bom
[In Supremo 16/70, 2013]
desprendeu a crina prateada
frente ao espelho corroído na casinha do pátio
ao pé do lavatório, essa bisavó
magra enigmática
num aceno breve reuniu o que estendeu
no enredo voluminoso de um toucado enquanto
de fora o calor velava um Verão de limoeiros
eu estava no ângulo mais assombrado
da idade cuidando por não ser descoberto
escondido com uns pássaros ao fundo
tão-pouco soubemos avó de poesias
e o que nesse canto me ofereceste devolvo
pior no recanto tardio de uns versos
VI
o ciúme tardio sem motivo
a torpe varonia enroupada na mansidão
em que flagravas
inseguro, em surdina
junto à presença desenvolta da mulher
de quem foste marido e náufrago
e teve contigo, afinal, um amor fiel
fecundo e bom
[In Supremo 16/70, 2013]
sexta-feira, 24 de junho de 2016
Maria Teresa Horta
ALUMBRADA
Maria baixa os olhos
alumbrada
e antes que Gabriel
a beije
fita-o por entre as pálpebras
Encandeada com as suas asas
pergunta
com voz rasgada:
- Nunca me deixas? Nunca me largas?
CONFISSÃO DO ANJO
Vi-a levar os dedos
de brilho
aos cabelos descobertos
e escutei o som cantado
das pulseiras, na leve nudez
de pétala de cada um dos seus pulsos
Enquanto num breve impulso
a resvalar em quebranto
surge a leveza do manto
deixando a descoberto
o seu vestido vermelho
Labareda - pensei
sem desviar os olhos
atento a um lugar tamanho
que assombra e me impede
de confessar a Maria
ser ela o começo do lenho
[In Anunciações - Um Romance, Dom Quixote, Lisboa, 2016]
Maria baixa os olhos
alumbrada
e antes que Gabriel
a beije
fita-o por entre as pálpebras
Encandeada com as suas asas
pergunta
com voz rasgada:
- Nunca me deixas? Nunca me largas?
CONFISSÃO DO ANJO
Vi-a levar os dedos
de brilho
aos cabelos descobertos
e escutei o som cantado
das pulseiras, na leve nudez
de pétala de cada um dos seus pulsos
Enquanto num breve impulso
a resvalar em quebranto
surge a leveza do manto
deixando a descoberto
o seu vestido vermelho
Labareda - pensei
sem desviar os olhos
atento a um lugar tamanho
que assombra e me impede
de confessar a Maria
ser ela o começo do lenho
[In Anunciações - Um Romance, Dom Quixote, Lisboa, 2016]
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| Philippe De Champaigne |
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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