DESENCONTRO (1)
Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces
DESENCONTRO (2)
No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu impercetível crescer
como carne da lua
nos noturnos lábios entreabertos
E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar
No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada
Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio
[In Poemas Escolhidos, Companhia das Letras, 2016]
domingo, 11 de dezembro de 2016
Luís Henrique Pellanda
Balcão de desejos
Já escrevi, uma vez, que as padarias à noite são como balcões de desejos simples, iluminados. A ideia é romântica, mas me agrada. Me faz lembrar uma história que sempre conto a meus amigos, nem sei com que intenção, pois nunca soube o que significa. Talvez eu espere que eles próprios descubram um sentido para ela, e depois o revelem para mim. Vou contá-la aqui também, e se algum de vocês tiver um palpite, fique à vontade para se manifestar.
Há poucas semanas, vi uma mulher, grávida de seus sete, oito meses, entrar numa dessas padarias do Centro, de camisola e chinelos de pano, lá pelas quatro da manhã, horário em que o estabelecimento está lotado de trabalhadores da madrugada. E sua aparição, tão limpa e maternal, foi um choque. De banho tomado e cabelos úmidos, cheirando a baunilha, a mulher se dirigiu a outra, bem mais nova que ela, quase uma menina, que no balcão matava o seu X-salada, cuidando para não borrar o batom com a maionese.
Foi rápido demais, a recém-chegada não deu aviso nenhum. Apenas estalou um tapa violento na cara da moça que mastigava o sanduíche. Estranhamente, a ofendida não reagiu, ainda bem. Só varreu com os olhos o chão do lugar, em busca de alguma coisa perdida, um brinco talvez, ou uma piranha. Achou o que queria perto de mim, entre os meus pés: um naco de hambúrguer fugido de sua boca. E me olhou por um segundo, desolada, como se pedindo desculpas por aquele desperdício de carne.
A padaria, quieta. Na porta, o homem das fichas foi o único a se envolver, cobrando explicações da agressora, o que foi isso, minha senhora? Alisando a barriga, a gestante esclareceu, sorrindo:
— Foi só um desejo que eu tive.
E caiu fora. Ninguém soube dizer quem era, e nunca mais foi vista.
Quando conto esse episódio a meus amigos, eles duvidam de mim. Acham improvável uma mulher entrar com chinelinhos de pano naquela padaria, àquela hora. Acham inacreditável que ela tenha dado o tapa na moça sem que a outra revidasse, ao menos verbalmente. Acham que inventei a lírica justificativa da agressora para a sua atitude descabida.
Concordo com eles, é absurdo, mas proponho uma saída: não foi exatamente a mulher quem entrou na padaria, e sim a projeção de um de seus sonhos. Eles riem da minha evasiva e perguntam como, nesse caso, eu teria visto a personagem. Me defendo com a única resposta possível: não sei, pois nunca estive naquela padaria de madrugada.
Pela manhã, sim, ou mesmo no começo da noite. Gosto de lá, porque sempre que me aproximo do balcão, a atendente quer saber:
— O que o senhor deseja?
É uma abordagem rara e perigosa. Em geral não perguntamos uns aos outros os nossos desejos, isso bagunçaria demais o mundo. Assim, para manter um mínimo de ordem nesta cidade, me forço a responder, humilde:
— Eu desejo pães.
25 de setembro de 2014
[In O detetive à deriva, 2016]
Já escrevi, uma vez, que as padarias à noite são como balcões de desejos simples, iluminados. A ideia é romântica, mas me agrada. Me faz lembrar uma história que sempre conto a meus amigos, nem sei com que intenção, pois nunca soube o que significa. Talvez eu espere que eles próprios descubram um sentido para ela, e depois o revelem para mim. Vou contá-la aqui também, e se algum de vocês tiver um palpite, fique à vontade para se manifestar.
Há poucas semanas, vi uma mulher, grávida de seus sete, oito meses, entrar numa dessas padarias do Centro, de camisola e chinelos de pano, lá pelas quatro da manhã, horário em que o estabelecimento está lotado de trabalhadores da madrugada. E sua aparição, tão limpa e maternal, foi um choque. De banho tomado e cabelos úmidos, cheirando a baunilha, a mulher se dirigiu a outra, bem mais nova que ela, quase uma menina, que no balcão matava o seu X-salada, cuidando para não borrar o batom com a maionese.
Foi rápido demais, a recém-chegada não deu aviso nenhum. Apenas estalou um tapa violento na cara da moça que mastigava o sanduíche. Estranhamente, a ofendida não reagiu, ainda bem. Só varreu com os olhos o chão do lugar, em busca de alguma coisa perdida, um brinco talvez, ou uma piranha. Achou o que queria perto de mim, entre os meus pés: um naco de hambúrguer fugido de sua boca. E me olhou por um segundo, desolada, como se pedindo desculpas por aquele desperdício de carne.
A padaria, quieta. Na porta, o homem das fichas foi o único a se envolver, cobrando explicações da agressora, o que foi isso, minha senhora? Alisando a barriga, a gestante esclareceu, sorrindo:
— Foi só um desejo que eu tive.
E caiu fora. Ninguém soube dizer quem era, e nunca mais foi vista.
Quando conto esse episódio a meus amigos, eles duvidam de mim. Acham improvável uma mulher entrar com chinelinhos de pano naquela padaria, àquela hora. Acham inacreditável que ela tenha dado o tapa na moça sem que a outra revidasse, ao menos verbalmente. Acham que inventei a lírica justificativa da agressora para a sua atitude descabida.
Concordo com eles, é absurdo, mas proponho uma saída: não foi exatamente a mulher quem entrou na padaria, e sim a projeção de um de seus sonhos. Eles riem da minha evasiva e perguntam como, nesse caso, eu teria visto a personagem. Me defendo com a única resposta possível: não sei, pois nunca estive naquela padaria de madrugada.
Pela manhã, sim, ou mesmo no começo da noite. Gosto de lá, porque sempre que me aproximo do balcão, a atendente quer saber:
— O que o senhor deseja?
É uma abordagem rara e perigosa. Em geral não perguntamos uns aos outros os nossos desejos, isso bagunçaria demais o mundo. Assim, para manter um mínimo de ordem nesta cidade, me forço a responder, humilde:
— Eu desejo pães.
25 de setembro de 2014
[In O detetive à deriva, 2016]
Luiza Neto Jorge
BANDA SONORA PARA CURTA-METRAGEM ERÓTICA
Ó harmonioso
ó estigma
ó consciencioso
enigma
ó sal
ó sal
ó gume
ó ímpio
ó sumo
ó escasso
ó sal
ó harmonioso
enigma
ó dente
ó estigma
do gozo
ó vocábulo
ó peso a sós
ó ar
ó ar arável
ó fraternicida
ó voz
ó harmonioso
frio
ó cingido
negro estio
ó dor voraz
ó timbre
ó cristificado
ó cru
ó harmonioso
espaço alheio
ó príncipe
princípio
ó morte a meio
[In O seu a seu tempo, Lisboa, Ulisseia, 1966]
Ó harmonioso
ó estigma
ó consciencioso
enigma
ó sal
ó sal
ó gume
ó ímpio
ó sumo
ó escasso
ó sal
ó harmonioso
enigma
ó dente
ó estigma
do gozo
ó vocábulo
ó peso a sós
ó ar
ó ar arável
ó fraternicida
ó voz
ó harmonioso
frio
ó cingido
negro estio
ó dor voraz
ó timbre
ó cristificado
ó cru
ó harmonioso
espaço alheio
ó príncipe
princípio
ó morte a meio
[In O seu a seu tempo, Lisboa, Ulisseia, 1966]
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Walt Whitman
38
Basta! Basta! Basta!
Por alguma razão estou atormentado. Afastai-vos!
Dai-me algum tempo além de minha cabeça esbofeteada, do sono, dos sonhos, das fissuras,
Descubro que estou à beira de cometer um erro comum.
Que eu pudesse esquecer os que zombam e insultam!
Que eu pudesse esquecer as lágrimas que escorrem e as pancadas das clavas e martelos!
Que eu pudesse olhar com um olhar isolado a minha própria crucificação e coroação sangrenta.
Lembro-me agora,
Retomo a fração que ficou além do tempo,
O túmulo de pedra multiplica o que foi a ele confiado, ou a quaisquer túmulos,
Corpos se erguem, feridas se fecham, grilhões rolam de mim.
Marcho adiante restabelecido com poder supremo, sou um no meio de uma procissão normal e infindável.
Pela terra e ao longo da costa prosseguimos e passamos por todas as linhas fronteiriças,
Nossos batalhões ligeiros a caminho, espalhados pela terra inteira,
As flores que levamos em nossos chapéus cresceram durante mil anos.
Discípulos, eu vos saúdo! Avançai!
Continuai vossas anotações, prossegui com vossos questionamentos.
[In Flores de Relva, 2006, trad, de Luciano Alves Meira]
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Wislawa Szymborska
MONÓLOGO PARA CASSANDRA
Sou eu, Cassandra.
E esta é minha cidade sob as cinzas.
E estes são meu bastão e fitas de profeta.
E esta é minha cabeça cheia de dúvidas.
Triunfo, é verdade.
Minha razão em chamas até lambeu o céu.
Só os profetas desacreditados
têm essa vista.
Só aqueles que tiveram um mau começo,
e tudo podia concretizar-se tão rápido,
como se eles nunca tivessem existido.
Recordo claramente agora
como as pessoas, ao me ver, emudeciam.
Morria-lhes o riso.
Desentrelaçavam as mãos.
As crianças corriam para as mães.
Não sabia sequer seus nomes efêmeros.
E aquela canção sobre a folhinha verde —
ninguém a terminava na minha frente.
Eu os amava.
Mas amava do alto.
Acima da vida.
Do futuro. Onde sempre é vazio
e nada é mais fácil do que ver a morte.
Lamento que minha voz fosse dura.
Olhem para si mesmos das estrelas — bradava
olhem para si mesmos das estrelas.
Escutavam e baixavam os olhos.
Viviam na vida.
Varridos por um grande vento.
Já condenados.
Presos desde nascidos em corpos de despedida.
Mas havia neles uma esperança úmida,
uma chama que se nutre da própria cintilação.
Eles sabiam o que é um instante,
ah, ao menos um, um qualquer
antes que —
Foi como eu falei.
Só que disso não resulta nada.
E estas são minhas vestes chamuscadas.
E estes são meus trastes de profeta.
E esta é minha face contorcida.
Uma face que não sabia que podia ser bela.
In [Um amor feliz], tradução Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2016
Sou eu, Cassandra.
E esta é minha cidade sob as cinzas.
E estes são meu bastão e fitas de profeta.
E esta é minha cabeça cheia de dúvidas.
Triunfo, é verdade.
Minha razão em chamas até lambeu o céu.
Só os profetas desacreditados
têm essa vista.
Só aqueles que tiveram um mau começo,
e tudo podia concretizar-se tão rápido,
como se eles nunca tivessem existido.
Recordo claramente agora
como as pessoas, ao me ver, emudeciam.
Morria-lhes o riso.
Desentrelaçavam as mãos.
As crianças corriam para as mães.
Não sabia sequer seus nomes efêmeros.
E aquela canção sobre a folhinha verde —
ninguém a terminava na minha frente.
Eu os amava.
Mas amava do alto.
Acima da vida.
Do futuro. Onde sempre é vazio
e nada é mais fácil do que ver a morte.
Lamento que minha voz fosse dura.
Olhem para si mesmos das estrelas — bradava
olhem para si mesmos das estrelas.
Escutavam e baixavam os olhos.
Viviam na vida.
Varridos por um grande vento.
Já condenados.
Presos desde nascidos em corpos de despedida.
Mas havia neles uma esperança úmida,
uma chama que se nutre da própria cintilação.
Eles sabiam o que é um instante,
ah, ao menos um, um qualquer
antes que —
Foi como eu falei.
Só que disso não resulta nada.
E estas são minhas vestes chamuscadas.
E estes são meus trastes de profeta.
E esta é minha face contorcida.
Uma face que não sabia que podia ser bela.
In [Um amor feliz], tradução Regina Przybycien, Companhia das Letras, 2016
quarta-feira, 21 de setembro de 2016
Vladímir Maiakovski
A ti, que cheiras a incenso, cortarei
daqui até ao Alasca!
Deixem-me!
Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem —
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!
Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!
O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.
(1914/1915)
(In Poetas Russos, trad. e prólogo de Manuel de Seabra, Relógio D´Água, Lisboa, 1995)
SOBRE Vladímir Maiakovski
daqui até ao Alasca!
Deixem-me!
Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem —
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!
Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!
O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.
(1914/1915)
(In Poetas Russos, trad. e prólogo de Manuel de Seabra, Relógio D´Água, Lisboa, 1995)
SOBRE Vladímir Maiakovski
domingo, 18 de setembro de 2016
Daniel Faria
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA
DO MENINO JESUS 1
A lâmpada já estava apagada. Certifiquei-me.
Não era um grão, uma vagem aberta nem a manhã.
Esperei para testemunhar a felicidade na luz
Da certeza — sim minha madre tinha vomitado
A claridade do sangue — pensei
É o céu
Era a janela todavia, a enfermidade, a fenda
Voluntária. Não era minha madre
Toda a casa terrestre demolida.
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA DO MENINO JESUS 2
Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para
[a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu
Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência — há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura
Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como a medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro
[In Dos líquidos, 2000]
DO MENINO JESUS 1
A lâmpada já estava apagada. Certifiquei-me.
Não era um grão, uma vagem aberta nem a manhã.
Esperei para testemunhar a felicidade na luz
Da certeza — sim minha madre tinha vomitado
A claridade do sangue — pensei
É o céu
Era a janela todavia, a enfermidade, a fenda
Voluntária. Não era minha madre
Toda a casa terrestre demolida.
DO MANUSCRITO C DE SANTA TERESA DO MENINO JESUS 2
Imagino que nasci num país coberto por espesso nevoeiro
E que nunca contemplei o risonho aspecto da natureza inundada
É verdade que desde a minha infância oiço falar
E sei que para lá dele, na minha pátria, há outro
E que é por esse que aspiro cada dia.
Não é uma história inventada por um habitante que não volta para
[a lavra
Por um homem triste que pára na velhice ou em frente do arado
É uma realidade brilhante como um rei em combate
Um herói a coroar-se das trevas que venceu
Se é preciso que eu coma sozinha o nevoeiro da provação
Ainda que me doa a humidade do reino luminoso
Comerei a obediência — há por certo
Uma região mais íntima na circulação das minhas veias
Uma outra terra que pensa a minha morada
Um perfume, uma maravilha, um repouso
Para a cabeça dos que lutam com bravura
Eu, porém, não disperso a energia. Reúno-a
Para o amor
Viro costas ao duelo como a medalha no peito do esposo
E respiro até à última gota do sangue. Minha madre
Eu corro
[In Dos líquidos, 2000]
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