segunda-feira, 11 de março de 2013

Maria do Rosário Pedreira

DORME, MEU AMOR
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -

a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos

agora e sossega a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,

meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.


DIZ-ME O TEU NOME
Diz-me o teu nome - agora, que perdi 
quase tudo, 
um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.


In Nenhum Nome Depois, 2ª. ed. Lisboa: Gótica, 2005.

Margarida Cepêda

domingo, 10 de março de 2013

Maria Teresa Horta

TEMPO
É o tempo da mentira.

É o tempo curvo de matar
a morte

É o tempo exacto
de estar exacta e nua

nua e longa
na distância das  fronteiras
do sangue
com cidades cortadas pelo meio

É o tempo grande
de estar cansada
e fria
de estar convosco e ter concessões nos olhos

É o tempo dia
de inventar paisagens
quentes
e ter um carnaval vestido sob os seios

In Cidadelas Submersas, 1961

Matisse
A mulher de chapéu

sábado, 9 de março de 2013

Carminha Gouthier

COM O ÓLEO DA ALEGRIA
Se não queres que descanse nos Teus ombros
minha fronte atormentada...

E não me convidas para as colheitas de trigo, 
onde espigas vibram à música de Tuas Palavras...

Nem me permites brincar com algas e conchas 
na areia da praia,
onde os Teus consertam redes, no oficio de pescar...

Se tropeço nas raízes da Cruz,
ao colher as flores que amanhecem nos Teus rastros.

E tenho de ficar sozinha,
esquecida,
até que venhas...

Unge meus olhos, para que Te reconheçam 
sob o véu de todas as ausências.

E meus joelhos,
para que possa equilibrar-me
nesse fio de luz estendido sobre os abismos.

Mystica poesia, poemas reunidos, ed. José Hipólito de Faria, Belo Horizonte, 2003, p. 110

sexta-feira, 8 de março de 2013

Guerá Fernandes

Marc Chagall
SE EU FOSSE HILDA HILST

Se eu fosse Hilda Hilst
faria pra você um lindo poema
mas louco e sabendo do amor tão pouco
seria meu outro o dilema
Se eu fosse Hilda Hilst
e de terríveis asas a cantilena
porque de silvos caminhará o torto
cortando os pulsos pelas algemas
Se eu fosse Hilda Hilst
ou a chuva que tristíssima desaba
ou o sol que atravessou de raios o rosto
do meu fantasma que me aguarda
Se eu fosse Hilda Hilst
íris coruscante da fresta-palavra
seria de cinzas, porque eu estava morto
no luto que não tarda e o cão ladra
Se eu fosse Hilda Hilst
e o amanhã na minha flauta
e ao dizer ‘o veneno do seu corpo’
não soaria barata a cantata
Se eu fosse Hilda Hilst
ou a capela, um solo, uma sonata
e por só ser seria menos que um sopro
assim a dor se basta, inexata

quarta-feira, 6 de março de 2013

Mário Faustino

BALADA
(Em memória de uma poeta suicida)

Não conseguiu firmar o nobre pacto 
Entre o cosmos sangrento e a alma pura. 
Porém, não se dobrou perante o fato 
Da vitória do caos sobre a vontade 
Augusta de ordenar a criatura 
Ao menos: luz ao sul da tempestade. 
Gladiador defunto mas intacto 
(Tanta violência, mas tanta ternura),

Jogou-se contra um mar de sofrimentos 
Não para pôr-lhes fim, Hamlet, e sim 
Para afirmar-se além de seus tormentos 
De monstros cegos contra um só delfim, 
The Drunkard - Marc Chagall
Frágil porém vidente, morto ao som 
De vagas de verdade e de loucura. 
Bateu-se delicado e fino, com 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Cruel foi teu triunfo, torpe mar. 
Celebrara-te tanto, te adorava 
Do fundo atroz à superfície, altar 
De seus deuses solares — tanto amava 
Teu dorso cavalgado de tortura!
Com que fervor enfim te penetrou 
No mergulho fatal com que mostrou 
Tanta violência, mas tanta ternura!

Envoi

Senhor, que perdão tem o meu amigo 
Por tão clara aventura, mas tão dura?
Não está mais comigo. Nem conTigo: 
Tanta violência. Mas tanta ternura.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Orides Fontela


CAÇA
Visar o centro 
ou, pelo menos, 
o melhor lado 
(o mais frágil).

Astúcia e tempo 
(paciência armada) 
e — na surpresa 
Mario Fresco
do golpe rápido —

colher a coisa 
que, apreendida, 
rende-se?

Não: desnatura-se 
ao nosso ato...
Ou foge.

Poesia Reunida [1969-1996], São Paulo: Cosac Naify, 2006, p. 159

domingo, 3 de março de 2013

Etty Hillesum

"Escreve ambição. Aquilo que me sai para o papel deve ser imediatamente perfeito, não me contento com banalidades. Também não estou convencida dos meus dotes, essa sensação ainda não se me tornou orgânica. Em momentos extáticos acho-me capaz de operar milagres, para depois bater no fundo do poço da incerteza. Isso advém de eu não fazer diariamente aquilo que acho ser o meu talento: a escrita. Teoricamente há muito que o sei; há uns anos, escrevi num pedaço de papel: nas raras vezes em que aparece, a mercê deve ser acolhida por uma técnica bem cultivada. Mas esta foi uma frase saída do cérebro, que ainda não tomou corpo. Será que realmente vai começar uma nova fase na minha vida? Este ponto de interrogação já está errado. Inicia-se uma nova fase! A luta já está a ser travada. Luta não é exatamente a palavra certa para o momento atual  presentemente sinto-me tão bem e em harmonia por dentro, tão completamente saudável, melhor é dizer pois: a consciencialização está em pleno progresso e tudo o que até agora tem estado irrepreensivelmente ordenado em fórmulas teoréticas há-de instalar-se no coração e ser concretizado. E em seguida a minha considerável autoconsciência deve ser banida — de momento ainda gosto demasiado da fase de transição. Tudo se deve tornar mais óbvio e mais simples, e assim talvez me torne finalmente adulta, capaz de ajudar outros seres humanos em dificuldades que partilham neste mundo, alcançando a claridade através do trabalho com os outros, porque afinal de contas é disso que se trata".

In Diário 1941- 1943, Assírio & Alvim: Lisboa, 2009, p. 68


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...