segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Fany Aktinol

FERTILIDADE
A mim,
A me acompanhar
Desde o céu profundo,
A poeira do sol, das estrelas e
O vento a instilar o espírito do tempo
Pela vida inteira.

A ti,
A semente
Passada de geração em geração,
O vale fértil e irrigado.

No umbral do portão da casa,
Com os pés nus,
Piso o caminho de pedra sobre a grama
Banhado em suave claridade.

Toda a escuridão desapareceu.
As plantas e as flores se multiplicaram
E há quem as guarde.

Tudo frutificou
No jardim guarnecido por pequenos seixos.

               ******

AS CHAVES DA CASA
A quem poderei entregar
As chaves de casa,
Revestidas por ternas palavras
Que inundam o coração?

Na passagem deste símbolo precioso
Os cantos serão de imenso júbilo
E algum tormento,
As récitas abarcarão a vida completa.
Quem me dará a Palavra
Antes que se apague a memória?

Meu quintal foi sempre
Frondoso em árvores frutíferas.
Nunca precisei cuidá-lo.

A quem entregarei
As chaves da casa
Tão cálida e arejada
Com pomares ao sul
E majestosas montanhas à frente?

Quem virá até mim
Receber uma chave
Respingada de lágrimas e saudades?

              ******

Tão ensolarados estavam os dias,
e o meu peito explodia em tantos espasmos
de dor e saudade,
que estava certa de haver morrido.
Mas, sabes bem
que aqui ainda estou
em estado de absoluta confusão:
estamos no inverno ou no verão?
vivemos o presente ou apenas planejamos o futuro?
Pode-se dizer que, na verdade,
nunca me ausentei nem por um instante
porque uma densa cortina de lágrimas
inunda constantemente a passagem
e eu tenho medo de me afogar na travessia.
E também,
por vocação,
a esperança foi sempre essa coisa imensa
dentro de mim.
EMIL NODE

Fany Aktinol, poeta e bibliotecária, nasceu no Rio de Janeiro. Publicou, em prosa poética, "Um atalho entre o sol e a solidão"  e os livros de poesias "O sol se põe em meu corpo", "Sob o esplendor de milhares de sóis" e "Para onde vou (vou sozinha). 

domingo, 9 de novembro de 2014

Paulo José Miranda

Ó hora de patas longas
E olhos grandes sem pálpebras onde descansar
Corpo coberto de escamas prateadas
Que fazem brilhar os mortos recentes no meio do mar
Ó hora guerreira e bárbara
Que deixas escorrer fogo pelos cantos da boca
Lembrando os corações jovens quando se encontram
Nas ruínas dos casebres mais distantes
Ó hora peçonhenta e vil e traiçoeira
Que arrastas com as vidas para o fundo
Dos rios mais rápidos e profundos
Onde a morte adormece devagar a um canto qualquer
Ó hora que levas e trazes os carros
Cheios de pessoas e mercadorias e suas expectativas
E pulsas no interior do sangue de todos nós
Como uma bomba humana
Ó hora que cais do céu sobre vida de alguém
Agarras numas pernas e vais a algum lugar
Como és parecida comigo aqui e agora
Lembrando o tudo que fui, o nada que sou, o tudo por ser
Ó hora que tudo fazes e tudo deixas por fazer
Porque aterrorizas tanto aquele que por enquanto é
Se assim como Deus tu não existes e a tudo dás existência
Porque mostras os dentes sem dizer porque és e ao que vieste
Ó hora que passas e não passas
Enquanto eu espero

(Inédito)

By  Linda Vachon




sábado, 8 de novembro de 2014

Eloy Sánchez Rosillo

PRELÚDIO

Já nem sei quando, mas uma vez disseste
algo sobre a noite, algo acerca
dos poderes da escuridão.
e tuas palavras, tão estranhas a ti,
tão diferentes de tua essencial e conhecida luz,
fizeram-me recordar os longos anos
que o presente demorou para amadurecer.

Houve um tempo anterior. Houve uma ausência
de sol acariciando os sítios
que me ofereceram depois sua verdade mais profunda.
E foi lento o acaso. E foram lentos
os toscos argumentos da dor,
os olhares oblíquos da sombra.

Agora escuto o som claro que na manhã
ergue-se sobre os corpos, as paisagens
que antes foram escuras.
Diante de meus olhos brilham
realidades distintas, que hoje compreendo.
Mas quando a tarde se aproximar das confusas
e trágicas cores de seu fim,
talvez ouça de novo a voz que havia esquecido
e tenha de encontrar outras razões
para pensar que tampouco isso é verdade.

Aos 16 de dezembro de 1976

[Tradução de Adriano Winter]


Douglas Kriezel



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ana Luísa Amaral

EPÍLOGO
Esta história podia não ter fim.
Bem sei que diz de lagos e de chuva
E o seu final se fecha com a chuva
Caindo sobre o lago.
Mas mesmo assim podia não ter fim.

E se continuasse, então que fosse
Um fim feliz, uma segunda história,
Espécie de coisa bela e irmanada
Sem amor decaindo e onde as duas
Se encontrassem por fim num terceiro país.

Por exemplo, o Japão. Agrada-me o Japão
Nesta minha função de contadora,
Pelo tom improvável e exótico.
Que seja no Japão o seu encontro.
Imaginemos pois uma viagem.

Vindas de lugares extremos,
Alguns anos depois
E o pequeno amor à sua volta ainda.
Vulneráveis ainda. E em silêncio.

A filha fôra despedir-se deles ao aeroporto. Ao olhá-la, pensou como o cabelo já não era tão louro como antes, mas de um tom castanho. Clarinho ainda, a dar-se bem com os olhos azuis. A filha abraçou-a, pedindo «Volta depressa, mãe. E telefona.» Eram sempre assim as despedidas. Ela tentando não chorar e no último momento desfazendo-se em lágrimas, ele mais sóbrio, contrariando-lhe a compra do tabaco «Não vais fumar isso tudo, com certeza.»

Sempre assim fôra. Ele cultivando o sensato e a segurança, como estar um pouco antes da hora marcada no aeroporto ou entrar no comboio meia hora antes, ela amando o prazer de esperar pela última chamada, o tempo misturado, o imprevisto.

Fez-lhe a vontade e foram dos primeiros a entrar no avião, e a viagem era dele: um curso necessário no Japão. Sentiu medo, como sempre, do avião a levantar. E se não levantasse, e o chão ainda ali, as chamas envolvendo o avião, e a morte. Mas eram tão iguais as coisas todas e tão pouco provável o acidente, que o avião levantou de facto e os ouvidos dela ressentiram-se. Como sempre. O costume.

A conversa, o costume, que nem merece honras de página ou de linhas. Foi bonita a chegada ao fim da tarde, o avião pousando realmente e os ouvidos dela uma vez mais. O costume. Como a chegada ao hotel, o desfazer das malas, a pequena ronda de reconhecimento tão do gosto dele e o fazerem amor como o costume. As lágrimas nos olhos dela, que ele não viu, porque tinha a cabeça no seu ombro e no silêncio escuro as lágrimas são cópias de pérolas pequenas.

Depois, a ida cedo para a cama, que o curso a começar de manhãzinha assim o exigia. E ela fechada na casa de banho a chorar um pouco, pensando em anos antes, na primeira história em que as três da manhã eram o génesis de tudo. E, no dia seguinte, a desejar-lhe boa sorte para o primeiro dia e ele a dizer-lhe «até logo, e não te esqueças, vê lá, do pequeno-almoço».
Sozinha no quarto, pouco lhe interessava o pequeno- almoço. Um país diferente como o outro há alguns anos, mas a mesma língua em que o léxico idêntico e comum era dos dois. Nada de províncias de palavras importando mais do que dizer: aqui, as palavras eram só palavras como adeus até logo e não te esqueças vê lá do pequeno-almoço.

Não te esqueças de mim. Vou sentir a tua falta. Tanto. Numa língua diferente há alguns anos. O pequeno amor sempre rondando, sempre perto nas cartas - por favor, escreve, querendo dizer apesar da distância, amo-te sempre, e apesar do beijo que não houve, mas houve sem lábios. Saiu.

Eram ruas diferentes
Como é suposto assim ser no Japão.
E tanta gente, cidades povoadas E de cultura tanta e tão diferente.
Imaginemos, pois,
Que do extremo lugar ao que era o dela, A outra também vinha, uma lua maior Como a lua anterior de há tantos anos.
E as quatro da manhã a recordá-las.

[Excerto de Ara, Porto, Sextante Editora, 2013, p. 57-59].

(ARA recebeu o prêmio PEN clube português 2013, na categoria narrativa). 














quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Adriano Wintter

NOVO AMOR
I
apesar dos chacais, aqui estás
disposto a mais
 essa aventura
                    (núbil
                    ou inútil)
                    em busca
                    do Absoluto

tu não aprendes com a dor
é teu defeito
                     o peito
                     repete o furto

                     e o fatigado
                     fígado
                     – casmurro ao
                    cárcere –
                    gladia com a harpia
                    da solidão

aqui estás
no fracasso de tudo
com frustração e furor
asco e pânico
e crises de cólera comprovam
que não és um anjo


II

héctico pulsar
de diamantes
                    que revigoras
                    quando avanças

ampla
unidade de
relâmpagos, fusão
de infâncias, cura
das pústulas espúrias, ocaso
das culpas, enlace
de exílios, riso
cúmplice, sono
unívoco

                    isso
                    esperas da Verdade
                    e seu milagre

pois não aprendes com a dor:
amas sempre

 FLUXOS RUBROS
primeiro foi a manhã
       ruiva leoa:
       patas de tulipas
       e rugidos de papoulas

depois o fogo
       artéria de hélio
       glóbulos celsius
       irrigando a terra

por fim: o crepúsculo
       portal de rubis
       entre astros que nascem
       e azuis
       que desintegram

O AÇÚCAR É
fúsil
se alumens diluem
sua armadura mascava

acro
se cáustico ataque
parte a mandíbula frágil

albino
se fios de refino
esfolam aminoácidos

inviso, líquido, místico
se luz ou amor destilam
gotas etílicas de seus átomos


FONTES 
estou sentado no solo do sofrimento, longe das
harpas do sexo, das quatro fases do fogo
e cavo para ver

estou sentado de costas
com as mãos ulceradas, buscando
o coração da Flor (o branco
nome dos entes)
que bate na boca
de Deus

estou como Borges:
no escuro, tateando
hipóteses da
obra, sentindo
a mitológica fala
que agarro e arrasto
para luz:

raiz
da linguagem
que o ar áudil
esfaz

ECOS
I
o verso: negra
pedra, quebra
o silêncio: vã
mordaça de
estilhaços
que o encerra
(ou exalta)
um segundo
após o impacto


II
a página:
breve
arena
 (ou
tenro
tálamo)
em
que se
invadem
e
dil-atam
o vazio
e as
palavras


III
a leitura:
rubro
gesto de
audir fogo
polir ecos
em abismos
caçar febres
em contrários
- alçar aves –

RESGATE
adeus, fosso escuro
tumba de mundos
chão de tarântulas


adeus,  minha ira
meu fracasso
hircus foetidum complexos
ócio pânico fantasmas
traições élan do nada

adeus

junto aos cabos do amor
e às cordas
da aurora
eu subo ao círculo azul
do recomeço


 (uma face me iça)


LAUDO
cardiopata crônico

com
alto nível
de açúcar no sangue

inflamações
dissolvendo neurônios

insanidade
sonhos

displasia lírica
no dna das
células

e um
repetitivo
pendor à hipérbole

pelo que
diagnosticamos:
excesso
de um hormônio
só encontrado em anjos
ou
vulgarmente falando
AMOR
tipo
raro
sem remédio

 O Bom Samaritano, 1885, Ferdinand Hodler (1853-1918



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Hanna Senesh

CELESTE
Sobre a ponte Margarita passei recentemente.
Ainda não havia anoitecido, o crepúsculo coloria o horizonte,
Mas o sol tinha se posto por trás de um monte,
A brisa do Danúbio trouxe um vento apressado,
E o cheiro de Buda[1] nele estava misturado.
E sei. A primavera já passou, não está presente.
Olhei as águas do Danúbio adiante,
Seu enorme e abundante corpo rolando lentamente,
A tarde envolveu-o numa capa celeste,
Celeste a gaivota que sobre as ondas voa,
Celeste o redemoinho que o outono abençoa.
Como um olho celeste, fluía abundante.
Meus olhos percorreram o monte sombreado,
Um enorme manto celeste envolvendo seu dorso,
E a cidade com um casaco celeste cobrindo seu torso,
Celeste era a luz nas janelas das casas,
De celeste estavam vestidos os jardins das acácias,
Celeste fluía e abundava por todo lado.
O céu se alegrou de leste a oeste.
Com o celeste reflexo do fundo do mar,
A noite celeste veio nos abençoar,
Um mar celeste que as alturas tomou,
Veio uma nuvem branca e no celeste mergulhou,
E foi carregada pela correnteza celeste.



[1] Budapeste.  (N. T.)

[In Diários, Poesias, Cartas, Organização e Tradução do Hebraico, Inglês e Espanhol de Frida 

Milgrom, Tordesilhas, São Paulo, 2011, p. 61].


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Salgado Maranhão

CLIVAGEM
Canto para renascer na pedra
com a semente que o mar
roubou dos náufragos; canto

para repartir com o vento
a lúdica sesmaria da palavra.

Um atlas abriu seus galhos
para acolher meus reinos:

uma geometria de farrapos;
um tigre com o sol entre as patas.

E sigo este rio de letras
como se chão em chamas;

a poesia me despiu
para explodir com os astros.


(Do livro "Ópera de Nãos)

SOBRE SALGADO MARANHÃO


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...